Vinte por vinte ou Mate-me agora, amor

Infinitena, ano 2. 
489 madrugadas
2
tentativa com flores
1 sonho de avião, 1 sonho de bunker, 1 sonho com oculista de cabelo macio, 1 sonho com consultório
Sopros, já pedi a conta. Um susto. Outro. Uma canção. Dois apelidos. Uma cadeira. Coentro e cachaça.
Vinhos. Máscaras e outros mimos. Correios. Até tu, Brutus. Hopkins e personagens de quadrinhos.
344o dia no calendário kalúnico e contando.
Todo dia eu penso: agora vai. Toda madrugada eu fico.

 

“Você é um pouco Natal” – é por coisas assim que eu não consigo ir embora.

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“Vem ver, vem ver, é 20 por 20”. Não lembro quase nada de nada, especialmente da infância, mas lembro do monte de oftalmologista aglomerado ao meu redor, extasiados com a minha visão perfeita**, embora cada olho insistisse na sua livre mirada. Não durou muito a perfeição na minha vida (e na de quem se estende? entre a visão impecável e homens extasiados, acho que fiquei com a melhor parte) e poucos anos depois estava eu com grossas lentes. Disse ela que às vezes, sem reparar, entra de óculos no banho e se sente perturbada porque embaçam e pensamentos nada felizes ocupam o juízo. Espero um dia, depois de vacinas e tal, visitá-la para confidenciar que sempre vi o mundo meio borrado. Mesmo nos anos incríveis pós-cirurgia da miopia e pré bifocais ou o que quer que seja que uso agora. Trago a miopia no sentir, talvez. A casa dela é de sopa e chás e pão de queijo no jantar. Jantei angústias, ontem, temperadinhas com sal das lágrimas e o amargo da impossibilidade. Eu sei, eu sei, uma sucessão de figuras piegas. Vamos colocar na conta da infinitena e não na minha reconhecida falta de noção. Outro exemplo dela (neste caso, não ela, ela, mas ela, a falta de noção): presentes. Não sou boa nisso. Nunca lembro das datas corretas, por exemplo. E, às vezes, mesmo conhecendo apenas superficialmente alguém, tenho vontade de enviar-lhe algo, só mesmo por que. Pois é. Tem um trocadilho prontinho pra ser escrito em uma frase sobre amigos, psicanalistas e dar. Mas não vou. Vão os pacotinhos e quem quiser se incomodar, que se incomode. Também voltei a escrever cartas. Serei resistência à privatização dos correios de uma forma um tanto quixotesca. Não comprei Chagall, comprei pano de chão e desinfetante na amazon. Provavelmente não escaparei da revolução, mesmo estando na mesma trincheira, quando encontrarem meus extratos do cartão de crédito. Na editoria aquele grande amor, as fotos não são roubadas (que boa ideia, amiga), mas a pasta existe. Com nome inventado e tudo. O rosto magro, a barba, a blusa azul, a mecha branca, nenhuma lente pra disfarçar a tristeza bem assentada. Ela sonha reformas incríveis, eu sonhava viagens, horizontes e infinito, agora a rota é única: quatro paredes, a moldura de uma cama e um relógio que tique-taqueie bem devagar. Se houver serviço de quarto: caipirinha, que é uma espécie de limonada para pessoas que vão dizer adeus e sentem os órgãos internos se desmanchando. Tem dias assim, todas as metáforas de bom gosto se ausentam para participar de alguma convenção elegante em um salão privado de hotel, com pequenos canapés, grandes drinques e crachás escritos com caneta pilot. Ficam no trabalho só as comparações de sobrenomes polissilábicos: esdrúxulas, excêntricas, espampanantes (sim, a gente tem que gastar este tipo de palavra enquanto nos é permitido). Tem outros dias em que você lê: te quero muito bem, e você pensa em contentes e fica querendo acreditar que o quero e bem são como você quer e tanto. Não dura, claro, você sabe (você sou sempre, sempre, sempre eu) que é uma frase pescada, dita como quem faz um carinho despreocupado e meio desligado atrás da orelha do gato. Voltei para o tumblr e é tentador nunca mais usar palavras e me perder em ofélias, cigarros, filmes antigos e piadas melancólicas. O notebook foi formatado e eu me sinto um tanto perdida, como se parte de mim tivesse sido apagada. Tento reencontrar os arquivos no HD externo, mas eles me parecem esquivos, arredios e um bocado hostis. Contei o sonho. O sonho que sonhei com você. Contei pra você, que nem ouviu. Sempre me pergunto porque lhe entrego tanto poder sobre mim. Porque afio a faca, encosto no peito e coloco o cabo na sua mão? Aí, ontem, na análise, eu citei: “a gente destrói aquilo que mais ama, em campo aberto ou numa emboscada(…), os covardes destroem com um beijo, os valentes destroem com a espada” e como uma coisa puxa a outra também falei da Clitemnestra no conto da Yourcenar, que ao se deparar com sua imagem no espelho, envelhecida e supostamente indesejável, escreveu ela mesma uma carta anônima ao marido que voltava da guerra com seus espólios, informando de sua traição com um sobrinho, esperando que ele – Agamenon – a matasse de uma forma íntima. Talvez estrangulada como um último abraço. Ou, digo, eu, com uma lâmina afiada penetrando o peito até terminar de separar as bandas do coração partido. Por todos os deuses, eu sou tão óbvia, nem precisa de visão vinte por vinte pra ver. 

*******************

Te dei meu coração***, você me deu sua senha do streaming.

(as emoções exageradas que uma tarde em um quarto não resolveriam, não é mesmo, senhoras e senhores?)

Era véspera e eu sozinha. Não que eu me importasse muito com a data, mas sempre gostei da sobreposição de vozes e risos. Não esperava e você chegou. Com suas muitas taças de vinho, sua culpa, seu desejo encarcerado. Palavras suas, não minhas. Hoje, espiando o álbum de retratos, vejo que entendi tudo errado. Ouvi: adeus e suspeito que você dizia: me abrace. Com medo de que você não tivesse pra oferecer o que eu queria pedir, não dei o que você esperava receber. Eu tinha esquecido que tínhamos uma música.  Como eu não vi seu sol caindo no meu mar?

 

Antonio Arissa The kiss 1930
C’est Magnifique – Melody Gardot, António Zambujo

** Por favor, detalhistas e oculistas de plantão, eu – hoje – já sei que 20/20 não significa perfeição mas uma suposta normalidade… mas não ficaria tão legal no texto, né?

*** e era um coração em bom estado, pouco uso, nenhuma avaria mais severa.

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