Um amor, desses de cinema

Assisti Monsieur & Madame Adelman e vim escrever que você também deveria ver. Talvez eu escreva isso porque Victor se apaixona pelo sorriso de Sarah e quem não gosta de uma bela brasa na sua sardinha? Talvez eu escreva porque a história começa em um bar, ele bêbado demais, ela empolgada demais, ele se arrepende, ela insiste. Sei lá, me soou quase assustadoramente familiar (alguém poderia argumentar que não era um bar, mas era uma espécie de boteco, não era? E havia vinho. Muito vinho). Talvez eu escreva sobre isso ou qualquer coisa como uma forma de sustentar essa imaginária conversa que desejo interminável e mantenha a impressão de um vínculo qualquer. Ou, plot twist, tem um jornalista me entrevistando pra futura biografia, vai saber.

E o filme? É uma história assim: um relacionamento. Ele é bonito, ela ri, os dois são inteligentes, um tantinho cruéis. Pronto, pode soltar a respiração, há pouco mais em intersecção.

Mas, a bem da verdade, não é de nós que gosto no filme. É inquietante que na única crítica que li sobre ele, até agora, tenha se analisado o filme como se fosse uma comédia. Me senti no Choque de Cultura lendo isso.  Tem que ver se não é comédia, se não for comédia, excelente filme. Embora tenha algum humor, não me parece que o propósito central seja fazer rir (embora haja momentos em que, sim, claro). Me pareceu um filme sobre relações. Ou ainda, sobre o imperfeito nas relações – que é o que as faz existir também. O desencaixe, o desencontro, as frustrações assim como o encanto, o tesão, o deslumbramento. A finitude. Do sentimento, da parceria, das pessoas. E o que permanece.

Também é um filme sobre a potência da palavra e da lembrança. Poder contar uma história, a própria história, é confortador. Organizador. E libertador. Passear nos corredores da memória, etiquetar as lembranças, dizer sobre elas, reformá-las, reinventá-las, moldá-las à necessidade do presente. Expressar-se. Como bem disse W. Salomão: a memória é ilha de edição. Por outro lado, ao colocar a narrativa no centro, a força de poder dizer-se, também é preciso reconhecer que palavras têm pontas afiadas. Não sei se existem novos cozinheiros sem pequenos cortes e queimaduras. Certamente não há escritores sem marcas e cicatrizes do processo da própria escritura. Sarah é quem conta, é uma história sobre um escritor, mas ele não é o dono da palavra, embora não passe impune por elas. É uma história da mulher que recorda, mas depois de anos juntos, como garantir a “pureza” do que se lembra? Como, depois de tão misturados, saber que o que se lembra é lembrado a partir de si mesmo e não filtrado pelo olhar do outro? Como não pensar no Chico: “te dei meus olhos pra tomares conta”?

E é um filme que se faz atravessar, com alguma malícia, por outras questões relevantes como desejo, segredos, relações familiares, sucesso (ou fracasso) profissional, relação teoria/prática na política e por aí vai sem se perder nestas veredas e ficar sem rumo (as famílias, aliás, dariam um texto à parte, o que carregamos das nossas histórias familiares, o que adotamos da família de quem amamos, o que transformamos, as coisas com as quais rompemos, as cenas que repetimos sem perceber).

Não há condescendência nem com personagens, nem com os espectadores. É um filme para adultos, é preciso bagagem e alguma coragem. Não há temor de expor fraquezas e inseguranças do casal burguês (que sabem e/ou se perguntam sobre o que são e representam, quase sempre) que está longe de ser modelo nos diversos papéis que ocupam, inclusive como pai e mãe (alguém pode dizer que os filhos são “esquecidos” pelo roteiro em vários momentos, mas, penso, é um jeito inteligente de mostrar como as crianças são escanteadas na trajetória deles, o quanto são abandonadas mesmo).

É um filme sobre amor. E sobre um relacionamento de 45 anos. Não se enganem – e nem o filme pretende contar esta história – não é um filme sobre um amor de 45 anos ou sobre como o amor dura pra sempre (sendo o sempre, 45 anos). Como eu disse, conversando com a Renata, o amor não cabe bem em calendários e relógios. Como eu sei disso? Precisei reinventar uma vida pra caber você nela desde sempre.

Acho delicioso e pertinente que Nicolas Bedos e Doria Tillier, um casal eles mesmos, além de viverem os protagonistas, Victor e Sarah, tenham escrito juntos este instigante roteiro. Além disso, Nicolas Bedos dirigiu o filme, com entusiasmo, alguma ansiedade nas decisões, mas bastante talento pra utilizar cortes e uma câmera ágil.

Tem umas coisinhas a pensar sobre minúcias do roteiro (se aquela revelação final sobre estilo é verdadeira, como ele escreveu aquele excelente livro sobre ela?), mas nada que seja realmente um incômodo (e pode ser que eu estivesse com os olhos tão marejados que tenha perdido alguma coisa, vou rever). É fácil querer pensar que Sarah é completamente responsável pelo Victor escritor. Um tantinho mais complexo é pensar que relação é construção de intertexto. Sim, muitos vão pensar em e considerá-lo como um A Esposa, mas francês – para o bem e para o bem (eu ia dizer para o mal, mas que mal?). Mas me lembrou, também e principalmente, Trama Fantasma. Amores para os quais o rótulo de feliz ou infeliz não é o bastante. Amores necessários. O amar de quem insiste em dar o que não se tem a alguém que não o quer. Sempre que eu canto a musiquinha da Vanessa da Matta (se você quiser eu vou te dar um amor, desses de cinema) é em relacionamentos assim que eu penso: agridoces.

Da parte técnica e execução, há muito pra se apreciar no longa. Gostei das cenas das vendas, por exemplo. Do figurino. Da maquiagem, da incrível e crível maquiagem que envelhece os atores ao longo de 45 anos. Do uso inteligente e divertido da presença do psicanalista. E das referências (umas sutis, outras nem tanto) que amarram o enredo. O filme é uma delícia ao sobrepor referência em cima de referência de literatura, música e muito, muito cinema, e o diretor soube explorar todos esses elementos assim como conduzir a narrativa ora em ciclos, ora em espiral, alternando um ritmo leve e ágil no momento de euforia amorosa e um certo peso e vagar quando a vida se avoluma nos ombros deles.

Ao conhecermos Victor e Sarah, recordamos: passamos a vida encarando o abismo. Se pudermos confiar que quem nos ama saberá ser generoso quando for preciso, já se tem – acho – um horizonte confortador.

Gosto também das nuances no filme. De não demandar empatia com os personagens, mas conexão. Além disso (narciso, etc), algumas frases e situações parecem ter sido colocadas lá só pra me cutucar ou inebriar. Bem no comecinho vemos Sarah apagando o cigarro no tampo da escrivaninha, supostamente um móvel de imenso valor afetivo. Victor presenteando: “pessoas apaixonadas exprimem isso de forma material. É meu jeito burguês de dizer eu te amo”. Ironias e um bocado de reflexões inteligentes, porém pouco confiáveis – como ela dizendo algo tipo as pessoas que fracassam acham que nós nos afastamos ou vamos nos afastar. E se tornam desagradáveis. Mas nos afastamos porque se tornaram desagradáveis e não porque fracassaram – a premissa soa consistente, mas ao vermos a relação entre os dois, não é assim tão clara a sequência.

E, claro, na hora que ela diz que o amou por 20 anos porque passou 20 anos com medo de perdê-lo, quem não se encolhe na cadeira?

Entre as versões possíveis de Victor, escritor reconhecido, premiado, ambíguo como filho, terrível como pai, um tanto hipócrita politicamente, é do Victor que ela decidiu amar que Sarah fala o tempo todo. E, assim, também é um filme sobre escolhas. Sobre as muitas que ele e ela fizeram ao longo da vida, mas também e principalmente as escolhas que ela faz do que lembrar e como contar o vínculo entre os dois. Alguém pode questionar o quanto do que ela conta é real. O quanto o homem que ela apresenta é real. Mas, eis a grande sacada, isso não importa! O que importa é o que ele foi pra ela e o que ela diz dele, fazendo-o presente, mesmo ausente. Não é um filme simples. Que bom que não é. Mas é muito honesto.

As pessoas podem reclamar que o filme não é feminista o bastante. Que Sarah era um mulherão e se resignou a ser menos do que poderia ser. Eu penso que essa é uma conclusão precipitada e pautada por alguns valores de sucesso relacionados à mentalidade produtivista, de vida pública, status, etc. Mas há prazeres outros no que é íntimo. Há intensidade e diversidade na poça d’água, sabia e nos dizia Agatha. Gosto demais de que Adelman seja a família dela, por exemplo. Sarah não é uma vítima de um homem mau que nem pica-pau. Não, ela está tão implicada na história dos dois como ele. Desejante. Autora e protagonista tanto quanto ele. Talvez um pouquinho mais. Ambígua. Corajosa. O filme perde como panfleto, mas ganha em sutileza. Ela, assim como todo o filme, deliciosamente amoral.

Na canção de Vinícius: o amor só é bom se doer. O deles foi maravilhoso. 

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Escolhi essa foto porque ela está sorrindo? Porque contei o sonho em que eu estou cega? Jamais saberemos (mentira, já sabemos, né)

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