Minotauro

Ela diz Pablo e, se ela diz, escuto. Diz também Marlboro, Free e eu penso em cowboys e amizades desfeitas e no coração do Piauí e beijos em moços altos, alguém apelidado de Paraíso, outro lembrando um dos Irmãos Coragem – o que joga futebol – e piadas com batom e biógrafos e cartas escritas em conjunto e a sensação quase irrepetível de encontro e encaixe. Alguém ainda fuma Carlton? Alguém ainda chora espantos? Eu nem mesmo posso alegar inocência. Errei duas vezes. Duas vezes. Nas maiores apostas. A banca sempre ganha. A vida sempre puxa o tapete. Eu devia saber. Mas eu não sabia. Eu não sei. Por aqui, nenhum telefonema sombrio. Na verdade, nenhum telefonema porque a TIM me odeia. O corretor do celular me odeia. O aparelhinho que pesca canais de satélite pra mim não para de engasgar. Quando acontecer a revolta dos equipamentos eletrônicos, não terei escapatória, serei caçada como um cão na rua (que expressão cruel). Nenhum telefonema sombrio, mas a nuvem cinza de desenho animado acompanha nossas poucas mensagens. Escuto um áudio que mandei e descubro que falo como escrevo, enchendo a história de intervalos. Vários travessões. Uma vez brinquei que ia escrever um texto sem pontuações na minha newsletter e enviar, junto com ele, um saquinho cheio de pontos e vírgulas para os leitores usarem como lhes aprouvesse. Preciso incluir travessões na sacola. Sinto-me um caracol. Comi caracóis em Portugal. Ela falou na escada caracol. O que isso representa? Nada, além da minha facilidade de associar livre escrevendo aqui e travando nos fins de tarde de quarta. Sempre que vejo escadas em caracol penso em voltas pra casa com álcool ou tristezas no corpo. Muito peso e desequilíbrio pra arrastar escada acima, cada vez mais enjoada. Eu sou desligada e desastrada e esquecida e bem tonta, mas com um GPS pragmático muito equilibrado. Por isso escolhi o moço de grandes olhos verdes no shopping. Eu só vou gostar de quem gosta de mim funcionava quando eu tinha 15 anos, funcionava aos 30, funcionava bem nos 45. Acho que a infinitena descalibrou a bússola. Sinto saudades do Henrique e da Glauce e da Nane e da Varela e de tanta gente que amo e não sei amar. Penso em mandar mensagens assim: desculpe, não tenho te tratado direito, vou melhorar. Não mando porque suspeito que não vou. Não sou muito boa em promessas que envolvem um sempre. Fui espiar cantinhos antigos e o Tumblr tinha censurado um dos meus blogs por “conteúdo adulto”. Um tumblr que tinha apenas fotos de mãos dadas. Eu não sei o que eles consideram coisa de adulto: afeto? Mandei um qualé e recuperei tudo. Não sem uma certa tristeza pelo moralismo comendo de esmola. Flamengo e Itália venceram, mas não como quem quer me agradar. A sombra do Ceni ainda vai atrapalhar por um tempo, na Gávea, até o time redescobrir um jogo coletivo além do esforço individual. Tenho uma planilha para acompanhar minhas finanças. Ando mantendo a planilha conscienciosamente em dia. Palmas. As contas, nem tanto. Pelo menos não vou poder alegar que eu não sabia, olha aí todas as mensagens de perigo. É muito, muito feio, mas às vezes eu volto ali, na caixinha, só pra espiar seu rosto e ficar passeando pelo labirinto que você construiu conversa após conversa e me largou lá dentro sem fio, sem Ariadne, sem esperança, sem companhia. Sem nem Minotauro.

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Você não imagina – não tem nem tempo pra isso, aliás – como tem sido assustador te amar e, ainda mais, amanhã. Ou melhor, hoje, que o relógio já avançou além das batidas da Cinderela faz um bom tempo. Hospitais e fantasmas, que combinação. Um pé, outro pé e o abismo ao lado. Não te contei ainda, mas tem um despenhadeiro no filme que vi hoje. Aquele, o filme em que a mulher apaga o cigarro no tampo da escrivaninha.

Sim, eu me pergunto se saberei existir quando for o tempo não só da sua ausência, mas da ausência desse amor. Às vezes eu me conforto recordando que já fui uma eu sem você. Às vezes resgato imagens como essa do cavalo (percebe, ivair, a fragmentação do cavalo) e me divirto que poderei ser qualquer eu, basta juntar os pedacinhos:

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Contei agorinha e tenho: esse blog, uma newsletter, de um a seis tumblrs voltando à ativa, um diário e um blog novo (Para embrulhar peixe) com a babi eu te amo pra caraleo lopes. Eu, poço em fundo.

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