Um intervalo pra delicadeza e, sim, Graúna, Loki e alguns personagens não nomeados ocupando quadros na parede da memória

Se não fossem os tempos que são, eu até usaria a palavra feliz. Uma conversa tão gostosa com ela, sobre risos e jornais compartilhados e jazz e moda e aprender o mundo aprendendo a ser amada. Ela que tem as frases exatas. O resultado é que na próxima semana vou rever todo Woody Allen que der. Tudo bem que esqueci de comer, mas agorinha preparei um espaguete bem honesto passado no azeite com cebola, tomate, alho e manjericão. Aí fiz aquelas tirinhas de bacon bem crocantes, esfarelei e joguei no prato porque tudo que é bom fica melhor com bacon. Pros amanhãs, pretendo espinafre e queijo. Quem sabe uma lasanha. Durante o dia escrevi coisas boas para pessoas queridas e comprei variados blocos de papéis de carta acreditando que vamos todos querer saber uns dos outros por tempo o bastante para usar folha por folha. Nem me irritei quando recebi a mordidinha de cobra. É sem veneno, mas o dente é afiado. Podia doer, não doeu. Talvez porque também teve Truffaut, Antoine Doine e o filme que é de tanta gente, mas que quando é meu, é só e tão meu. Uma daquelas coisas que não são nossas, thanks dog. Opa, god. Ou quem quer que cuide do roteiro. O que escrevo, são quase verdades quase mentiras e nem eu nem elas sabemos onde está a fronteira. Ou se há. Claro que segui ainda marcando o caminho para você, mas agora já não me preocupo tanto se com pão ou pedra. Contos de fadas para adultos. Lavei o cabelo – inclusive meu xodó: o fiozinho branco bem na frente – com o shampoo de canela, depois joguei o spray de café, talvez eu cheire a cappuccino, agora. Troquei os lençóis por aqueles macios e, embora insistentemente vazia, a cama se tornou mais convidativa. Chegou o diarinho e, como ela me adivinha, hoje teve doçuras. Roupa de papelão e dinossauros. Não qualquer dinossauro. Um desenho de dinossauro. Pensei no Pequeno Príncipe e não lembrei de você. Lembrei dele. Que traz chaves e pontes. Novo mundo. Navegamos. Um pouquinho de cada vez. Rumo ao desconhecido do/no outro. Devagar, no tempo das coisas. Baixamos carta por carta. Deslindar. Descobrir. Desnudar. Ao acaso. Passeios com cachorro, plantas no papel, velas, Troia e até um pouco de fé. No radinho, Marisa Monte e Asgeir. E a delicadeza, principalmente a delicadeza. Ele não me adivinha, mas se interessa em desvendar. Não sinto a fome, mas também não sinto o desespero. Alguma curiosidade. Ternura. Conjugar os verbos no presente. Mergulho. Como entrar no mar e reencontrar o equilíbrio do corpo. Não é seguir com as ondas, não é ficar rígida, é um me deixar mover, sentir que dentro e fora é apenas um jeito de organizar o espaço, antes e depois é somente a forma de nomear o tempo. É ver o mar e mais, sentir seu cheiro, o sal que arde nos pequenos cortes, entender o que é necessário entender, esquecer o que é necessário esquecer, acolher o que é necessário acolher, deixar ir o que já não deve ficar. O mar é o único lar que faz sentido pra mim. E, quem sabe, algum abraço. 

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Pela primeira vez, desde 1o de abril de 2020, o Amazonas passou 24hs sem registrar nenhuma morte por covid. Parece uma coisa tão pequenina. Mas me emocionou muito. Olha lá uma esperança, diria a Graúna.

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A Graúna é, talvez, minha personagem preferida no universo do Henfil. Gosto do trio do Nordeste, claro, e suas interações,, mas ela sintetiza muitos elementos que me comovem, divertem, inspiram. Tive, por um tempão, um blog (ainda mais) confessional chamado (espia a criatividade): Eu sou a Graúna. Um tanto pelas críticas à ditadura, censura, família nuclear, machismo e desigualdade social, além das características de humor, resistência e sobrevivência, tão próprias de quem tem as penas curtidas do sol do sertão. Mas, suspeito, principalmente pela forma irônica, livre e prazerosa de lidar com seu gênero (livre, eu sustento, apesar de algumas predileções ambíguas no relacionamento). Valente. E, sim, estou tecendo auto elogios. Modéstia, não trabalhamos.

O povo ainda chama mulher de galinha?

Momento reminiscências. Tem esse moço lá de longe (em tantos sentidos) que me interessou e eu joguei: pode ser ou tá difícil. E ele: tá difícil (depois nem tava tanto, depois tava, mas enfim, sigamos). Se tá difícil, tá difícil, vida que segue. Moço, porteira, tudo com muito afeto, mas biscoito, né, gente. Só que além daquele querer, eu gostava dele. De querer o bem, sabe. E de querer fazer esse bem acontecer. Mas tinha um pé atrás ali que nunca ficou explícito, mas nunca senti que passou. Eu podia dizer: sossega, sossega. Mas me faltou energia. Ou interesse. Quase sempre esqueço disso, esqueço dele, mas quando lembro, tipo agora, me dá uma dó do tão amigos que podíamos ter sido. 

Lembrei dele porque ontem papeando com a Fal (delícia), saí da conversa com uma meia memória. De um outro moço, de um rosto, de um cheiro. Não lembro o nome e nem a circunstância. Lembro o toque, o beijo, a gentileza, a segurança. Lembro a maciez da barba, lembro demais. Lembro que ele parecia com alguém de quem, até hoje, lembro bem. Não faço ideia de quem era nem de porque terminei/terminamos. Deve ter sido em uma viagem, será? Mas naquela coisa da memória da pele, lembro a felicidade. Alguém que esqueço quase sempre, como o rapaz do parágrafo anterior, mas a meia lembrança só me faz sorrir. 

E ele (ainda o que tava difícil) me fez pensar em outro sorriso. Nesse caso, nem precisava perguntar se podia ser ou tava difícil, tava fácil, tudo fácil, ele, eu, a situação. Principalmente a situação. Acho que nos envolvemos mais com a ideia de sermos juntos que um com o outro, mas mesmo assim foi divertido. Até começar a ficar difícil. O tempo, o espaço, ele pra mim, eu pra ele. E abandonarmos a ideia fez com que gostássemos mais um do outro. Muito mais. Anos e anos e é tão bom chamar: amigo.

Aquele trajeto, ora alegre, ora dolorido, do ” eu te desejo, amor” para o “eu te desejo amor”.

O amor é imprevisto. Parece que o Loki se apaixonar causa um problemão na linha do tempo. Me abraça, amigo.

Pão de queijo recheado de goiabada talvez seja algum tipo de heresia, mas tão gostosinho.

Estou bem atenta pra não me tornar uma espécie de Pete Fedido. Por não se sentir amado, por nunca brincar ou sorrir, por jamais ter estabelecido vínculos, ele acha que ficar na caixinha, sendo admirado, é melhor que ir pro mundo e correr qualquer risco. Tenho medo, afinal são muitos, muitos dias misturando-se nesta infinitena, na caixinha das telas (e olha que sou chegada a uma interação virtual, mas, né, depois vinha o avião), recebendo – senão amor, riso e festa – aplauso e admiração distante. Tenho medo de sentir que é o bastante e esquecer como sou boa nisso de viver.  

 

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