Silêncio que se vai cantar o fado ou Infinitena #dia477 mas publicado dia478 porque ninguém se importa mesmo

Hoje é um dia de silêncios. O óbvio. O da torcida de basquete. Maior, o da torcida do Flamengo. O silêncio da noite. O silêncio dos inocentes. O silêncio no quarto. O silêncio dos bons. O silêncio entre duas fileiras antes de batalha. O silêncio das estrelas. O silêncio em todas as caixinhas**. Silêncio que se vai cantar o fado. Tem coisas que calam tão fundo, seja lá o que essa frase signifique. O mar parece nunca silenciar. Mas eu nunca estive na Depressão Challenger, talvez lá. Uma coisa engraçada é isso de saber (ou não) que se é valiosa. Eu sei o meu valor. Uma pérola perfeita. Porém, ah, porém, dá uma batucadinha pra disfarçar, nem todo mundo tem fôlego ou equipamento para mergulhar e encontrar a concha. Isso sem mencionar eventuais águas turbulentas.

Uma coisa boa a infinitena me tirou: o interesse por comida. Não tenho necessariamente comido mais ou menos, mas tenho comido com menos prazer. E, algumas vezes, bem mal. Ainda assim, passei o dia inteiro vendo temporada antiga de Top Chef. Ou talvez por isso mesmo.

Uma coisa ruim a infinitena me trouxe: inveja. Porque em vidas que eu não queria ter tido existem prazeres que serão recuperados antes do que recuperarei os que davam sentido à vida que eu curtia tanto levar. Não é que eu quisesse essas coisas, nem antes nem agora, mas invejo o breve que parece existir. No meu daqui pra frente ainda serão muitos os silêncios. E a solidão.

Ontem ela falou de solidão. Eu sempre penso no Alfredo. E dele salto pra Vinícius, nos dias bons; e pra Sílvia, nos nem tanto. Oi, Sílvia. Ganhei livros da S. Plath de uma pessoa querida. É estranho como tem afeto que é comida de elfo, daquelas do senhor dos anéis. Um pedacinho alimenta por um tempão, cura feridos e enfermos e dá um gás pra seguir insistindo nisso de viver. Lembas embrulhadinhas pra viagem. E a gente sem poder sair do lugar. Lá no lá dela, um monstro querido que não sabe desenhar. Eu, no meu aqui, tenho pequenos monstrinhos de dentes afiados que roem os pés da esperança, bagunçam o armário dos sonhos, trocam o conteúdo dos vidrinhos dos temperos da vida: medo, alegria, bom senso, angústia e por aí vai. Claro, fazem tudo isso num insistente e maroto silêncio, eles não facilitam mesmo. Vai acabando o domingo. Sim, pedi pizza. Não, não me fez bem. Não pedir também não faria. Decifra-me e te devoro, ri a angústia com os monstrinhos na coleira.

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**Eu tenho pessoas maravilhosas na vida, o que eu não tenho mais é cara de pau. Apesar de querer tanto falar com, não vou chamar, depois de silenciar pra gente querida por tanto tempo

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