Brilhar e brincar de desesconde – desesconde #dia440nocalendáriokalúnico

Tal como o David Luiz, eu também escolhi esperar. Não as mesmas coisas. Mas esperar. Respirar fundo. Não contar até 10. Não contar as horas, os dias, o tempo. Esperar a mensagem. Esperar a vontade. Esperar alguma saudade. Esperar a presença. Esperar que. E se não, não. Receber bem essa minha desconhecida. Oi, tudo bem, dona Paciência? Senta aqui, faça de conta que esse peito é sua casa. Abri um vinho agorinha, aceita uma taça? Esperar. Acreditar que o futuro é mais que um agora estendido. Bem leve, leve. Dançar na pontinha do pé. Lavar o rosto com água gelada. E, no por enquanto, brilhar. 

Brilhar e brincar. De desesconde – desesconde.
Não saber o que é não significa que não seja ou que não seja bom.
Quando faz, faz muito bem. 

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Se ela tivesse a coragem de morrer de amor 
Se não soubesse que a paixão traz sempre muita dor
Se ela me desse toda a devoção da vida
Num só instante sem momento de partida
Pudesse ela me dizer o que eu preciso ouvir
Que o tempo insiste, porque existe um tempo que há de vir
Se ela quisesse, se tivesse essa certeza
De repente, que beleza, ter a vida assim ao seu dispor
Ela veria, saberia que doçura, que delícia, que loucura,
Como é lindo se morrer de amor!

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Tem esse programa, brincando com fogo. Umas pessoas bem jovens, dentro do padrão de beleza, solteiras e teoricamente loucas por sexo mas, olhando de perto, cuidadosamente escolhidas por suas inseguranças e péssimos relacionamentos prévios. Aí a dinâmica é: passar o dia com pouca roupa, na praia, flertando, mas sem pegação. No horizonte há um prêmio que será (ou não) dividido por todos ao fim do programa e a cada infração considerada sexual (beijo, masturbação, sexo), o valor do prêmio vai diminuindo. A premissa é que para fazer conexões profundas, os aspectos físicos do relacionamento devem ser minimizados, adiados, escanteados. Procurem a beleza interior. Risos. Quem consegue confiar no parceiro, ter conversas íntimas, dar suporte um ao outro, vai ganhando sinais verdes, basicamente algum tempo sem punição pra se beijar e tal. É um entretenimento triste tanto porque a impressão que dá é que o problema é o sexo e não como as pessoas lidam com ele, como porque há momentos de euforia quando algum casal que demonstra se gostar muito tem a oportunidade de passar a noite em uma suíte especial, sozinhos, e acordam no dia seguinte sem perder nenhum dinheiro porque colocaram um banco (isso mesmo, senhoras e senhores, um banco), no meio da cama, para não se tocarem. No sex, more money, um anti Zeca Baleiro.

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Hoje eu visitei um passado e revi muitas coisas. Evitei cuidadosamente as que se tornaram nossas, tão rápido. Como uma espécie de arqueologia de mim mesma, reli, assisti, ouvi e até comi coisas tão minhas. Só minhas. É que eu sei que vivi muitos dias antes dos dias em que você passou a viver em mim. Eu sei. Mas eu não sinto. Não sentia. Fiz escavação. Fósseis, monumentos, artefatos de uma época A. V. O desejo moveu placas tectônicas no meu peito. Descobri um coração e suas brechas. Entre ruínas jarros, pratos, urnas mortuárias, fivelas de cabelo. Downtton Abbey. Uma Marquesa. De Merteuil, oba. Discos da Mia Martini e Fito Paez.  Chapéu de couro, uma alegria intocada pela sua sombra. Praias, montanhas, castanhas, telegramas, touca, câmera, janelão, muros pulados, beijos na praça, até maquiagem e meias de seda. Por vezes eu parei, exausta de não te querer. Difícil resistir, tem euro na tv. Respirar, abraçar os livros do Machado de Assis, seguir. Acreditar-me capaz de kintsugi n’alma, depois que sua ausência for ausência e não essa presença dolorida se espreguiçando e imprimindo marca no tudo dentro de mim. Olhar pra trás é uma espécie de olhar pra frente, Construir, com meus tijolos amarelos, um viaduto, pra atravessar esse território. Olha lá, do outro lado, de casaco vermelho, echarpe azul e biquíni de estampa amarela, rindo alto, uma luciana.

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Não teve diarinho ontem? Pois teve. Um cheio de quinas e pontas afiadas. Como se diria no twitter: muitos gatinhos. Especialmente um Heitor. O dela não é o meu, mas ainda assim, Heitor. Além do que foi, Heitor é, talvez, meu herói preferido. Fechada nas minhas muralhas, recebi contas, mas nenhuma carta. Talvez, ao longe, atraquem mil navios. Se não tenho certeza sobre os ventos e barquinhos, confirmo que pelo menos chegaram Ilíada e Odisseia com tradução de Frederico Lourenço e uma caixa bem bonitinha, sombras em azul sobre letras. “Tenho no peito dores desmedidas“, diz e diz e diz Helena presa que é à injunção de Afrodite de que aceite e mesmo procure os abraços de Páris. Ser favorito de um deus não é nada moleza. Não que seja tão mais fácil ser esquecido por eles, como bem sabia Duras. Tenho que escolher um tema para falar na feira literária. Porque eu ainda digo sim se sei que não sei o que dizer? Vou dando like nas postagens de gente na rua. Fora, desgoverno genocida. Vez ou outra a foto de um moço que eu penso porque não fui? Sei lá de onde vem esse vento nostálgico, abro portas pra ele correr mais rápido. Pedi respostas na última garrafinha e recebi. É bonito algum diálogo. Uma vez uma estante de ferro, cheia de livros, caiu em cima de mim (pra minha sorte tinha uma cama pra eu cair em cima enquanto os livros faziam um morrinho no meu peito). Eu imagino uns leitores assim, tentando acompanhar tudo que escrevo, soterrados em palavras minhas. Talvez tenha sido isso. Sinto falta de você por perto, imagino que você pegou alguma saída no caminho, mas talvez você só tenha ficado preso em algum dito. Amanhã é domingo, vou assar legumes, trocar os lençóis da cama, tomar banho de sol, varrer o quarto, lavar o banheiro, esquecer você. Hoje é sábado, dia de sábado eu minto. 

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