Invasões reealmente bárbaras ou Infinitena #dia30nocalendáriokalúnico #dia474 #dia11

Pra começar: máquina e pia consertadas. Amanhã, em horário nobre, o grande festival de roupa lavada. A coisa mais linda é o amigo estrangeiro se comunicando comigo: querida, recebei sua mensagem. Os tempos são difíceis, mas é tão bom saber que há quem nos faz sempre, sempre, sempre bem. Nunca, nunca vou esquecer como fui e sou mais perto de quem quero ser ali no seu olho, na sua palavra, no seu abraço. Tem amizade que é construção, mas tem relacionamento que é dádiva, né. Estrela perene. Na editoria grande paixão, mandei imagens do meu coração por zap. Se alguém tem medo de se sentir ridícula, calma, você sempre pode se comparar comigo e sair ganhando. Ela disse que tudo na vida é tentativa e erro. Estou me saindo muito bem. Tentando viver sem você. Tentando. Tentando. Tentando. Mas claro que minha vida não é só isso. Comprei uns croissants congelados que ficam uma belezinha na airfryer. Os livros do Junito de Souza Brandão continuam tão interessantes quanto eu lembrava que eram. A rosa do deserto está exuberante. Recebi correspondência e fiquei tão, tão contente. O único furo é que quero te contar tudo isso e mais alguma coisa. Em de-ta-lhes. De qualquer forma, amiga mandou figurinha com dicas de economia e eu ri horas: se o Paulo Guedes soubesse quantos banhos eu tomo em um dia, mandaria me prender. Eu não guardo os panos de pratos bordados que eventualmente ganho. Fiquei pensando o quanto isso depõe contra minha pessoa. Eu coloco os panos de prato na baia, eu uso a louça da minha avó pra servir café da manhã, eu coloco minha camisola nova e o sapato vermelho pra vadiar sozinha em casa. Eu bebo o melhor vinho sem razão. Eu nunca serei digna, então desisti de tentar (e como tudo na vida é treino, eu li, eu acreditei, nunca sairei deste impasse). Como seu eu fosse o pano e você fosse a linha, canta o Gil e eu repeti no meu divã. Vou precisar rever Invasões Bárbaras. Meu analista fica cutucando, cutucando, cutucando. Ele não sabe que, neste agora, não é que eu não quero saber. É que eu não posso saber. Termino cada sessão como se tivesse sido atropelada por uma Scania, mas se estou sentindo essa dor no corpo, é que ainda tenho um pra sentir. Atrás de você uma almofada vermelha. Revisito minha vida em vermelho: desejo, vinho, a voz de Callas, raiva, ópera, Clitemnestra, Ferrari, receber correspondência, passagem aérea, andar de pés descalços, Riobaldo e Diadorim, coragem, O Beijo de Rodin, dançar sozinha, cinema italiano, gritar, jazz, Fedra, gargalhar, lençóis de seda, os olhos depois daquela dor, O Repouso do Guerreiro, prorrogação no futebol, Caravaggio, andar de mãos dadas, Ne me quitte pas, morangos e cerejas, cavalgar, a luva de Gilda, silêncio, prender a respiração em baixo d’água, literatura russa, “Madame Bovary sou eu“, conhecer novas gentes, um corte no dedo, Bambi, Marguerite Gautier, canetas, meu biquíni, Mia Martini, sentar em amuradas pra ouvir o mar quando ele ruge, tomatinho assado, acordar no peito do alguém, Capitu, Rastros de Ódio, a morte de Macabéa, aquele samba, as palavras de Nelson Rodrigues, desespero, Capitão Acab, poesia erótica. Queria pintar as unhas de vermelho de novo.

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Ilustração de Samuel de Gois

Eu corri em direção ao despenhadeiro pensando que tinha asas. O amor começa em uma metáfora. E se mantém no apelido. Confiante, desafiei os dois. E me estrepei. Sei hoje. Naquele agora, sorri. Um apelido que é uma convocação, o que eu estava pensando? Afiei adagas, muito antes dos roteiristas de Loki anunciarem o perigo. Em minha defesa, estava acostumada ao movimento: entra, desarma, sai. Tudo limpo, sem perdas ou algum dano mais permanente. Bastava os aviões estarem funcionando, um boteco, um quarto de hotel. Entra, desarma, sai. Fui treinada. Entra. Especialista. Desarma. Sobrevivente. Sai. Não sabia que você era labirinto. Futebol, cantiga e, pior que nudes, áudios. Trinta dias e eu já estava perdida. Não é só o sono, Kundera. Também o riso, na madrugada, é corpo de delito.

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