Pão e Poesia para uma rainha delicada ou Infinitena #dia471 #dia08 #dia226nocalendáriokalúnico*

Eu cato conchinha. O que você acha, tenho cara de quem cata conchinha?, sempre tenho vontade de perguntar isso pra quem está me conhecendo. É um dos meus aspectos centrais, será? Desde nem sei quando, vou à praia, volto com conchinhas. Menina, mãos cheias. Hoje, tento me controlar, uma ou duas por dia à beira-mar. Nem sempre respeito os limites. A culpa é delas, das conchinhas. Que me chamam e me atraem e me envolvem e quando nem vejo, estamos em casa, eu e um monte delas. Já matutei o porquê deste chamego com as conchinhas. Talvez, em um primeiro momento, eu tentasse reter o enlevo que sentia com o mar. Conchinhas, essas representantes do imenso. Em um primeiro momento? Risos. Talvez eu insista em fazer de conta que é possível um recordar material do que é bom e certo e alegre em mim. Talvez alguma coisa que me habita demande belezas. Ou é meu jeito esquisito de viver a fase anal, né, Freud. Eu trago conchinhas, mas não coleciono. Não classifico, não estudo, não marco data nem lugar de origem. Eu apenas as tenho. Uma rainha delicada, como definiu Clarice. Se gosto muito, mas muito mesmo, de alguém, dou uma das minhas conchinhas. Nem todo mundo entende, poucos desvendam: é uma chave pro meu mundo. Tenho notado que tenho uma certa inclinação para conchinhas de cor lilás ou rajadas de preto. É uma predileção, mas não determinante. Por um tempo eu alimentei um desejo: contratar alguém para fazer tecidos com estampas das cores impressas nas minhas conchinhas (e depois, claro, fazer minhas roupas com estes panos). Como será o nome deste profissional? Designer de tecidos? Delírio passageiro, não tenho e não terei dinheiro pra essas coisas. Sabe, tenho um búzio, também. Grande, rebuscado, ainda entrega o eco da melodia das ondas que o desenharam. Gosto dele. Gosto sim. Mas são as conchinhas, sua forma previsível, suas cores misturadas, que me comovem e cativam. Cato conchinhas. E me encolho nelas, quando arde o sal na pele fina.

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Não gosto desse passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente”. Nem vontade, seu Rosa, nem vontade.

Se eu soubesse de toda lágrima, todo medo, todo anseio, todo impossível, mas também todo o riso, toda surpresa, todo encontro, todo conforto, toda beleza, tanta alegria, será que eu tinha mandado a sequência de números e o vai que?

Você não sabe, mas o aceno não era pra você. Ou era, mas eu – que acenava – não sabia. Mesmo nome, mesma cidade, mesma live, outra pessoa. O amor é sempre um equívoco?

Esse/aquele dia: a foto impressa no vazio do meu peito. Você se tornou, em mim, o desejo de te fazer sorrir.

Coque samurai e a cor de um delicado pôr-do-sol no peito. Cansaço, cansaço e alguma tristeza. A gente nunca sabe o que vai partir a alma em banda. Nunca? agora eu sei. Alguma tristeza, cansaço, cansaço, a cor certa e um coque samurai. Você nunca sorri inteiro, eu disse. Agora, suspeito que nem eu.

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Passei um nada de dias fora, mas serviu de confirmação: minhas plantas curtem um pouco de solidão. Cheguei e está tudo florindo e vicejando. Isso da porta pra fora. Da porta pra dentro, minha casa está tão bagunçada que não estou com preguiça de arrumá-la, estou com medo. O pequeno núcleo familiar foi à praia. Uma praia deserta, chico feliz. Mas que demanda preparo físico pois escadinha pra subir e descer, caminhada pra escapar da parte das pedras e areia fofa pelo percurso, chico ainda feliz, mas um tanto cansado. Comemos em casa, bebemos em casa, lembrei o riso em casa e fora. De volta, estou um pouco chateada de não ter um hidratante e um namorado. O morno por debaixo da pele, talvez eu passe uns dias me alimentando de picolés. Balanço, pois chegou o diarinho dela, com a sabedoria em frases curtas: ovo é sempre uma boa opção. Ela pensa se seria possível viajar em janeiro. Eu queria dezembro. As duas suspeitamos que a cobertura da vacina ainda não será suficiente. Suspiro por poder reclamar de um aeroporto confuso, pessoas ficando na fila do embarque desnecessariamente, café caro, mas no meio de tudo, eu curtindo os sotaques. Por agora, mando link pra álbum privado fingindo que é pra você ver fotos de paisagem e torcendo pra que se demore nas selfies. Na editoria conto muito mais do que o razoável, fiz tanta espuma lavando o cabelo que poderia encher uma banheira de filme. Aí ela junta lavar o cabelo e feliz. Ela me adivinha demais. Tomei banho ouvindo “Pão e Poesia” em looping. Pra você: “qualquer lugar que se ilumina”. Pra mim: “quando a gente quer amar”. Tenho vontade de te procurar só pra dizer que a letra dessa música é do Fausto Nilo. E acrescentar: ele é cearense. Como quem diz: cearenses são legais, são sabidos, são delícia. Sou cearense. Não procuro, não escrevo, seguro o tchan. Sossega, menina. O moço da portaria tinha uma pilha de pacotes à espera: envelope com postal, livro do Marcelo Lins (jornalista famoso por muitos e bons motivos, mas – pra mim – especialmente por ser o irmão da Renata), coleçãozinha de mitologia grega e alguns abacaxis. Na caixinha, outra notícia de notícia boa. Coração deu duplo twist carpado. Estou muito no clima esportes. Do lado de fora do meu riso, gente escolhendo vacina. E a desgraceira toda do desgoverno. Nas lembranças do Facebook, em uma conversa deliciosa de 2017, o Paulo diz que me falta compromisso com o ódio. Faltava, né. Daí vi o vídeo da ovação feita à criadora da vacina de Oxford, na abertura do torneio de Wimbledon e bateu aquela saudade do mundo que eu imagino possível. E lembrei que sim, gosto de gente, segura essa marimba, luciana.

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Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Se a vida fosse trabalhar nessa oficina
fazer menino ou menina, edifício e maracá
virtude e vício, liberdade e precipício
fazer pão, fazer comício, fazer gol e namorar

Se a vida fosse o meu desejo
dar um beijo em teu sorriso, sem cansaço
e o portão do paraíso é teu abraço
quando a fábrica apitar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Numa paisagem entre o pão e a poesia
entre o quero e o não queria
entre a terra e o luar
não é na guerra, nem saudade nem futuro
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar

E a faculdade de sonhar é uma poesia
que principia quando eu paro de pensar
pensar na luta desigual, na força bruta, meu amor
que te maltrata entre o almoço e o jantar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

O lindo espaço entre a fruta e o caroço
quando explode é um alvoroço
que distrai o teu olhar
é a natureza onde eu pareço metade
da tua mesma vontade
escondida em outro olhar

E como o doce não esconde a tamarinda
essa beleza só finda
quando a outra começar
vai ser bem feito nosso amor daquele jeito
nesse dia é feriado não precisa trabalhar

Pra não dizer que eu não falei da fantasia
que acaricia o pensamento popular
o amor que fica entre a fala e a tua boca
nem a palavra mais louca, consegue significar: felicidade

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

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