Infinitena #dia464 #dia01

Ela disse ouvir e eu não duvidei. E digo que até gostaria, mas não sei o quanto eu dizer isso é verdade e o quanto é sentar de perninhas fechadas, usar os talheres corretos, repetir por favor e obrigada. Não que eu esteja olhando pra dentro. Ou pra fora. Fechei bem os olhos e me enrodilhei no bem dentro do casco. No oco, minha respiração pesada e os soluços secos ressoam em um contínuo que impede a distinção de qualquer outro som. Às vezes alguém bate, insistente. Às vezes eu estico um tanto de pele fina além do limite duro da carapaça. No hoje, acordar cedo e relutar. Fiz uma porção de coisas e nada do que precisava ou deveria. Merendei, almocei e voltei a merendar granola com leite. Mas é da Tia Sônia, devidamente industrializada. Que ninguém me tome por natural. Quando alguém apareceu na janela, coloquei a máscara de gentil e respondi. Saudades do tempo em que esse era mesmo o rosto. Cortinas fechadas, todos os assombros saíam debaixo dos móveis. Só um clichê compareceu e ele está há tanto tempo por aqui que já está pensando em mudar de vida e ser uma angústia particular. Eu não sei a temperatura ambiente, as persianas fechadas ilustram o tudo o mais. Arrumei caprichosamente a escrivaninha. Outra vez. Comprei livros. E galões de amaciante. Lembrei que a máquina de lavar roupa está quebrada e eu não consigo me mexer e chamar um moço pra arrumar. Durante toda a tarde, na tv, um monte de moço correndo atrás da bola. Eu amo esporte, posso vislumbrar um propósito, algo que sempre me escapou. Passei um tempo entre Anarres e Urras, tão estrangeira lá como em qualquer outro lugar em que estive. Anseio por aquele abraço pensando se, enfim, me sentirei em casa. “Pode-se voltar pra casa, afirma a Teoria Temporal Geral, dede que se compreenda que casa é um lugar onde nunca se esteve”. Pedi pizza margherita, mas com mussarela de búfala. Abri vinho. Não estou de meia e sim com um fino camisola lilás. Cantarolo a música da Dalva enquanto escrevo. É da Dalva, não é? Podia ter ido dormir mais cedo. Não fui. Podia morrer agora. Não vou. Teresa e e Salmaso me pegam no colo, afagam meu cabelo, misturam lágrima com rima e cantamos Álibi, juntas. 

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