40ena ena ena ena. Infinitena

De março do ano passado até agora foi uma montanha-russa de emoções, alternando entre tristeza, muita tristeza, angústia, desespero e, num laivo de irrealidade, um pouco de esperança, ali por outubro. Sinto-me de volta ao pior momento de 2020: álcool, programas ruins de tv, letargia e todo tipo de anestésico ou entorpecente legal sendo usado sem moderação. Com o agravante que não tenho mais ânimo pra falar com amigos ou dar em cima do moço que nem sabe que eu estava dando em cima dele pois meus métodos são apenas dois: rinoceronte numa loja de cristais ou borboleta no jardim. Ele era uma rosa, como na canção do Jorge Ben.

Não consigo ler. Não consegui ver os filmes do Oscar. Não consigo fazer mais do que o básico do meu trabalho. Muitas pessoas queridas perdendo pessoas muito queridas. Mesmo não podendo sentir como elas, sinto com elas. Não tenho força pra mais nada a não ser chorar as 3000 ausências a cada dia.

É verdade que a vida segue, gente nasce, gente faz aniversário, gente casa, passa no doutorado, defende dissertação. São momentos felizes. Eu é que já não sou.

Sinto muita falta de mim.

Mantenho a sanidade mental vendo vídeos dos sobrinhos (incluo aqui os filhos da Iara e da Marília M.) e bebendo café na varanda da minha irmã/vizinha. Mas fui aos Correios hoje e vou passar 15 dias sem o café. Haja vídeo fofinho.

Não consigo ler, mas consigo lembrar. E arrumando as prateleiras, encontrei esse livro fininho, No teu deserto, do Miguel Sousa Tavares, uma carta – como tantas que escrevi e não enviei. Um quase romance – como mais poderia descrever o que nos aconteceu? Não que tenhamos atravessado o Saara ou que um de nós esteja morto. Pelo menos eu acho que não estou. Aviso que não é spoiler falar da morte de Cláudia, somos informados logo nas páginas iniciais. Um momento único forja laços únicos. Como vivenciar a imensidão de um deserto. Ou o infindável de uma pandemia. Um livro que faz rir do que é para o riso, E que lateja, no que é para doer. Um livro que nos pega, nos apega e lemos como quem percorre. Viagem. Ficamos com o corpo cansado de estar na mesma posição – como se fôssemos no jipe. Sentimos o olho coçar e a necessidade de um banho, como se areia houvesse, entranhada. Nos deslumbramos com a vastidão e nos sentimos um tantinho perdidos. Uma carta que chega tarde demais, mas teria algo a ser escrito se tivesse sido dito? Texto testemunho do impossível. Muito, muito além de uma verdade. Há momentos que não voltam. Ou nós não voltamos a eles, por mais que melancolicamente enfileiremos palavras para os dizer. Não é o livro mais profundo, trabalhado, elaborado. Pode-se até mesmo encontrar, nas páginas, alguma autoindulgência. Mas há uma beleza nesta tristeza do que não foi. Tento me convencer disso, pensando em você. Não consigo ler e, parece, também não consigo esquecer.

E se estamos falando de livros, vou fazer o jabá do livro que lancei Éter: 18 contos de batom borrado e outros anestésicos. Está em pré-venda, aqui, na Loja do Drops Editora.  

Mockups Design

E quem não conhece minha newscoisa, Garrafinhas da Lu, vem aqui: Newscoisa #44: as águas vão rolar. Teve até BBB. 

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