Membros Fantasmas

Uma verdade: um dia a gente paga a língua (a gente sou eu, claro, e um dia é hoje).

Você troca livros, queria trocar carícias.

Ele só quer te usar. Ah, quem dera. Meu tempo, meu corpo, meu afeto, minha capacidade de cuidar, de entreter, minha alegria. Me usa.

Pode ser só birra, claro. Teimosia. Ego. Orgulho. Falta do que fazer. Eu chamo de amor – e ele responde.

Eu não preciso que você me ame. Que me namore. Que faça planos. Que viva comigo. Eu só quero que você me queira, tal qual Os Mutantes. E que deixe eu gostar de você.

Um dia e mais outro e outro. Aquela sensação de que o mundo acabou e, lá fora, só destroços do tipo filme distópico. Você fazendo compras por aplicativo. Máscaras penduradas em todos os compartimentos da casa, sempre à mão. Obras por terminar. Profissionais de saúde, exaustos. Acaba oxigênio em algumas cidades. Supermercados desabastecidos. Mil mortos por dia. O horror. Aí você vê fotografias. Filmagens. Assiste, sem querer, uma parte de um jornal. Festas, bailes, shows. Bares, jantares, reuniões. Escolas abertas. Salões de beleza. Shoppings. Pessoas circulando. Pessoas que você conhece fazendo “só um churrasquinho” com todas as medidas de segurança. Aquelas, de abril de 2020. E que no frigir dos ovos – ou no assar da carne – se resumem a lavar as mãos, talvez com álcool, porque quem vai comer e beber de máscara?

Cada dia mais e mais só.

Mas ainda recebo teu branco e preto e sinto calor. Ainda escuto as canções. Ainda rio com os trocadilhos. E danço, nua, pensando em você. Danço, né. Claro.

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Grey’s Anatomy é das melhores coisas que já vivi (nem digo vi, porque mexe comigo de uma forma ativa). Quando começou – e por muitos anos – a personagem que dá nome ao programa não me entusiasmava. O resto dos personagens é que construíram a teia e me aninharam nela. O que eu não sabia é que esse trabalho todo era pra deixar vir uma enorme Meredith – aranha prontinha para devorar meu coração. Por uns 12 anos eu questionava seu protagonismo, sem perceber a narrativa que se estruturava, para além da história evidente e que, hoje, me faz não só amá-la, mas entendê-la e, tantas vezes, entender-me.

Ser humano é ser um só (no sentido da unicidade, mas também da solidão que nos estrutura). E a série nos conduz junto à espiral da solidão de Meredith. Sua pessoa âncora: Cristina. Seu amor porto: Derek. Um a um. Vindo. Indo. Como a estação cantada por Milton: encontros e despedidas. Ou uma estação de trem, a perfeita metáfora do meu coração: chegadas e partidas.

Uma vez e outra, passar pela decisão: seguir vivendo apesar de. Apesar da água gelada que amortece a dor de viver. Apesar de ter o risco de ver explodir o coração como uma bomba. Apesar do inesperado da vida, acidente que leva onde não se pode cuidar de tudo e de todos. Com uma beleza que me encanta, episódio após episódio, a contradição: é nas perdas e nos vazios que as presenças e os laços se originam, se evidenciam, se consolidam. Perda após perda, sem porto e sem âncora, Meredith navega com bóias, faróis e sinaleiros.

Meredith vai descobrindo que poder ficar só não implica em querer ficar só, sempre. Nem, principalmente, ter que ficar só. Acho que é uma forma muito delicada de trabalhar o amadurecimento. Crescer não é não precisar de mais ninguém. É, também, acho, saber dar e receber esse cuidado. E, algumas vezes, precisar e ele não chegar. Muito se faz rima entre vidas que se tocam. A gente perdoa o outro. Ou se perdoa. Ou. E. Como Alex, ele que perdoou o pai que não deu o que ele precisava e perdoou a mãe por fazer tanto pra dar o que ele precisava e mesmo assim não pôde dar. Porque ninguém nunca pode, acho. Ele mesmo não pôde, e partiu.

Ser a gente mesmo, como disse o terapeuta da Meredith, pode ser bem assustador. E ainda mais assustador é reconhecer que nossos pedacinhos, o que nos forma e nos define, as partes de nossa “anatomia”, não são apenas o que está ou se acrescenta na vida, mas também as subtrações, as faltas, as perdas. Nossos membros fantasmas. E nunca poder coçá-los.

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