40ena e outros desabafos

Resolvi parar de me debater pra não me afogar tão rápido nessa areia movediça tóxica que é morar no brasil durante o (des)governo do genocida. Sim, a pandemia. Sim, a destruição do serviço público. Sim, a aceleração da devastação do meio ambiente. Sim, o extermínio dos povos indígenas. Sim, o esgarçamento das teias de proteção (já poucas) a mulheres, quilombolas, população LGBT. Ainda assim, apesar de tudo isso, parar de me debater. Cuidar um pouco mais de mim. Reencontrar os sorrisos. Me encontrar neles. Fazer-me bem. Comprei jerimum, batata doce, macaxeira. Comprei milho, laranja, tangerina. Cenoura, batata, um monte de cebola e tomate, cheiro verde, pimentões de todas as cores. Com boas, incríveis intenções: sopinha, por exemplo. Comprei todas as coisinhas, inclusive o caríssimo pão de forma, pra fazer o meu querido pão americano. Acordo com a notícia sobre a situação de Manaus. Hospitais sem oxigênio. Amigos de outros estados com parentes queridos internados. E o Ministério da Saúde lançando aplicativo que estimula que a população aja de forma irresponsável, usando medicação inócua e pressionando profissionais responsáveis. Hoje tá sendo pancada atrás de pancada. Sinto junto. Sinto muito. Sinto tanto não poder fazer muito mais do que sentir. Não tem sopinha, não tem pão gostosinho, não tem fome, não tem autocuidado, não tem nada a não ser uma angústia avassaladora, impotente, sem nome, sem rumo, vez em quando vertida em lágrima.

Toda minha solidariedade aos profissionais que estão tendo que decidir quem vão tentar manter vivos e quem vão abandonar pra morrer.

A todos que em nome de sua saúde mental contribuíram pra essa situação, vão pra baixa da égua (tenho repetido muito isso, eu sei, mas é meu sentimento constante). Uma amiga querida sugeriu que a gente devia ser um pouco mais generosa e condescendente senão vai ficar muito solitário o mundo pós-pandemia. Eu acho que pra mim isso já é irremediável. Ainda vou sorrir e conversar com você que fez só aquele churrasco, que deu só uma voltinha no shopping, que foi passar o carnaval na serra, na praia deserta? Provavelmente. Vocês não são negacionistas, bolsonaristas, etc. Eu vou fazer questão disso e me organizar para e festejar cada encontro? Não. E sim, eu já li que a gente que reclama é porque tem inveja. Releia a primeira frase do parágrafo.

Apesar do nome daquele blog, a borboleta nunca foi uma das “minhas” metáforas. Mas, agora, estou achando que, talvez, o casulo seja.

2 comentários em “40ena e outros desabafos

  1. Nossa democracia é muito recente, e infelizmente ainda erramos mais do que acertamos. Olha, eu tento, e como eu tento levar a minha vida e tentar viver na filosofia de que eu faço a minha vida, independente de governos e desgovernos. Mas neste ano está difícil. Que sirva de aprendizado, mas o que mais me deixa desesperançoso é que acho que não servirá de muita coisa. O looping continuará, mas espero estar errado. Força a todos nós.

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    1. Oi, Juliano, fico grata pelo seu comentário. Primeiro e principalmente porque esses dias são de muita solidão e um comentário é uma espécie de encontro, de toque, de contato. Segundo pela precisão e simplicidade do “diagnóstico”, nossa democracia é recente e ainda tateamos sobre o como e escorregamos feio. Vamos levantar e tentar mais e de novo, espero que com algum aprendizado. Força pra nós. Volte sempre.

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