O tempo, o vento e o álcool

Uma coisa tristíssima é a sensação de que, passado o que precisa ser passado, depois do depois, quando estivermos de máscara mas devidamente vacinados e na rua, eu estarei muito mais sozinha do que agora, nestes meses de isolamento.

A vida dá uns sacodes que benzadeus.

O consolo é que gosto um bocado da minha própria companhia. E tem a internet, livros, uns projetos interessantes pra tocar, praia por perto quando puder sair de casa, rede na varanda, tudo bem no ano que vem, ligações perigosas, west wing e o poderoso chefão pra rever até os olhos ficarem dormentes e a cozinha, sempre terei a cozinha (não hoje, hoje comerei pão com queijo e café, o dia todo).

Mesmo assim, doeu. Ah, doeu.

Tá tendo maratona de Criminal Minds, exatamente a companhia que eu precisava para passar essa virada de ano. Sim, continuo apaixonadinha pelo Reid. Séries e livros policiais me confortam muito. Já falei sobre isso algumas vezes. Eu sempre recomendo romances e séries policiais para males diversos, especialmente os de amor. É que eles parecem seguir uma lógica. Organizam o mundo. Encontram respostas. Quando uma relação acaba ou nem, quando está tudo muito dolorido, é aquela confusão nos sentidos. Tudo em carne viva e as pessoas se perguntando e se? Mas porque? Foi alguma coisa que eu fiz? Será que? O amor é labirinto sem fio de Ariadne. Sem nem mesmo as migalhinhas de pão do João. Amor não tem resposta única (o viver, na verdade, mas a gente se entretem no dia a dia e esquece um pouco). Não tem verdade. Quanto mais se olha pra trás e tenta desvendar o que e como aconteceu, mais perdida a pessoa fica. Já o universo do mistério policial faz sentido. No mundo dos livros e séries de investigação há uma pergunta central e uma resposta única. A verdade. Um desenlace que se a gente não pegou de primeira, volta e espia: vai ter um fio condutor. As pistas estavam todas lá, a gente que não tinha visto, mas com calma, analisando bem, arrá, era isso. Alguém explica tudo. Tudinho. O romance policial me acalma. Acalenta. Coloca um pouco de ordem – mesmo que temporária e transitória – na bagunça que é o sentir. É um desafio intelectual. A gente pode pensar sobre. Ou se deixar levar, como quem faz uma visita guiada: à direita vocês podem ver um suspeito inocentado, reparem que seu ar suspeito é, na verdade, efeito da azia. A gente (a gente sou sempre eu, como anteriormente combinado) tem essa fome: de conhecimento, de verdade, de saber. E viver é aprender que não tem resposta fácil, que a gente não vai saber tudo e que a verdade é uma construção. E amar é aprender isso tudo sem pele. Mas o romance policial, ah, por um momento a gente pode, sabe, responde. Poirot, Grissom, Miss Marple, Reid, quem for, eles vão saber. Vão dizer. Vão provar. Nesse 2020 de angústias, de incerteza, um tempo sem horizonte (que se estende para o ano que começa amanhã), nesse ano em que não só o sentir, mas o próprio existir se apresenta como uma imensa bagunça disforme, os livros e séries desse tipo me tem sido muleta, oxigênio, ninho, limite, fôrma (eu sei que não tem chapeuzinho, me deixa). Bora, Reid, me abraça.

Pegando gastura.

Tenho pena de nunca ter te mostrado o conto Plantação. Eu nunca tinha vivido em um tarde demais. É um lugar realmente inóspito.

O tempo, o vento e o álcool. Meu tio, muito sábio.

Eles desgastam tudo, sabe? O tempo, o vento, o álcool. Lenta ou rapidamente, no seu próprio e inesperado ritmo, vão esculpindo na pele, na carne, na terra, nas coisas do mundo, suas marcas. Discreta ou descaradamente. De forma bela ou disforme. Podemos dar-lhes sentido ou aos seus efeitos, mas não evitá-los – pelo menos não aos efeitos.

Escrevi e apaguei e reescrevi a mensagem que vou te enviar. Porque sou uma tonta e sim, tenho que desapegar, mas não, não vai ser hoje. Hoje eu ainda queria. Quero. Tonta, tonta, tonta, eu já disse?

Vejo as pessoas comentando sobre qual a cor que vão usar na passagem de ano e, bom, pelo menos nisso vou me divertir, estarei “cor da pele”.

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Duke Ellington, muito de boas

Um comentário em “O tempo, o vento e o álcool

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