Do mesmo jeito que sinto a tristeza do mundo, sinto as alegrias. A conquista das mulheres e dos movimentos sociais da Argentina me faz contente, me comove, me inspira. A interrupção voluntária da gestação não depende de leis. As pessoas abortam. Mas a segurança e a saúde das mulheres (e dos homens trans, claro) depende, sim, de leis e de uma cultura que as proteja. Argentina se torna um lugar melhor pra se viver.
Nunca fui de fazer planos (os pouquíssimos que lembrei de fazer – casar, tirar licença capacitação, comemorar os 45 anos em uma viagem – deram tão errado que é melhor nem comentar) mas tenho uma vontadezinhazinha pra 2021. Bem pequena e bem simples pra não atrapalhar a vida de mais ninguém.
Talvez eu tenha feito um pouco de chantagem maternal com meu filho (narrador: ela não se arrepende).
A nossa verdadeira trilha sonora é Jura Secreta.
Já somos esquecimento, sem nunca termos sido memória. E dói como nunca doeu um amor abandonado ou um amor que me abandonou. Como nunca doeu uma mala arrumada, uma porta aberta, uma estrada vazia. Como nunca doeu uma partida. Como nunca doeu um último abraço. Como nunca doeu uma estação, um portão de embarque, uma mesa de bar, um quarto de hotel, uma lágrima quente, um documento assinado. Como nunca doeu um dito. Uma certeza. Como nunca doeu uma despedida. A palavra que se esgarça até o silêncio é a espada mais afiada.
Um pacotinho daquelas frutas vermelhas congeladas. Polpa de morango. Umas uvas roxas. Um espumante. Não fica bonito, mas que boa companhia que é.
Desapegar não de você, mas da bonita história que eu queria contar.
É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Brindo a isso enquanto acontecem-me coisas surreais. Segue o meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Um mosaico com rachaduras evidentes. Nostálgica, mas disfarço com o riso fácil. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. Dou um boi pra não entrar em uma briga, o resto já se sabe. Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Nem que seja pra me juntar ao grupo. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça na mão. Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. Holanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Aspecto físico? Língua afiada e olhos cor de saudade. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Sabia o que é culpa, mas esqueci. Nada mais a dizer, prefiro andar de mãos dadas. E dormir acompanhada. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.
Ver todos os posts por Borboletas nos Olhos