Nem vem, não vai ter bolo mesmo

Eu não fui passar o Natal com meus pais e irmãos. Não vou, na noite da passagem de ano, dar os dez ou quinze passos que separam minha porta da porta da minha irmã-vizinha e acompanhar o fim de 2020 com ela, o marido e o filho. Ridículo dizer, mas também não fui a nenhuma outro tipo de encontro ou confraternização presencial. Na verdade, também não participei de nenhuma festividade virtual. E, claro, não tenho me juntado a nenhum grupo para não contrair ou transmitir covid. Porque por mais que tenhamos cuidado, o ambiente que tem pessoas reunidas, falando, talvez se abraçando, tirando a máscara para comer, etc, é, sim, um ambiente de risco.

Mas andei refletindo e percebi que esse não é o único motivo. Eu não sinto vontade nenhuma de festejar o que quer que seja. Ficar longe de todo mundo esse ano foi difícil. Foi difícil demais. Mas não participar de nenhum evento de confraternização, de nenhuma festa, neste dezembro, não foi nenhum sacrifício, foi apenas reflexo do meu estado de espírito. Não quero encontrar ninguém, não tenho coisas a agradecer nem esperanças pro ano que vem. Eu estou triste. E se minha alegria é insana e descaradamente gregária, minha tristeza é reservada, cheia de pudores, amante do recolhimento. Sempre fui uma pessoa de brechas. Sempre procurei o riso. Mantive uma Pollyanna brincando, livre, em mim, quando a todos parecia tolo. Mas não consigo comemorar o que quer que seja. Não consigo me imaginar festejando, esquecendo os 200.000 mortos – só no Brasil. Esquecendo os profissionais de saúde que estarão, exaustos, em plantões. Esquecendo as famílias e amigos que perderam cada um que foi perdido pra este vírus, mas não só, pra essa política de morte. 

Entendo quem vai num outro caminho, quem precisa do toque das pessoas próximas, quem precisa do brinde, quem precisa do respiro dos afetos íntimos, pra manter a cabeça fora d’água. Entendo quem arruma mesa bonita e faz comida farta pros que estão próximos, moram juntos ou se resguardaram pra esse momento. Entendo quem faz longas chamadas de vídeo e está gelando espumante pra brindar, pela telinha. Entendo quem resiste, quem não deixa a dor sufocar o riso. Entendo. Admiro.

Mas não entendo gente que faz churrasco pra um monte de outras gentes. Não mesmo. Não entendo quem tá fazendo festa em casa, quem tá indo jantar fora (especialmente com uma galera), quem tá viajando, quem tá visitando. E, principalmente não entendo quem escreve o que hoje eu li, no twitter: Porque vocês ficam se martirizando diante do inevitável? Eu morro um pouquinho quando leio isso. Alguém acha, de verdade, que 200.000 mortes (e as que virão, de covid e de miséria, já, já) e uma economia em bancarrota são/eram inevitáveis e que não tem nada demais ficar listando as coisas boas de 2020, não tem nada demais escrever sobre “os aprendizados da pandemia” e falar que é muito bad vibes quem não consegue ver o lado bom do ano que tá acabando. Alguém não só acha que isso tudo era inevitável como se ressente de quem não tá soltando fogos. Não entendo, não consigo me ver, depois do depois, sentada na mesma mesa que essas pessoas, por qualquer motivo que seja. 

Um amigo querido demais fez umas postagens lindas dizendo que 2020 não foi o ano mais difícil da vida dele, mas que entendia e acolhia que pra maior parte das pessoas que ele conhecia, sim, havia sido um ano péssimo e ele tava junto com essas pessoas. Não ia louvar 2020, etc. Eu me senti muito acolhida e amada. Pela sensibilidade dele. Pela generosidade. Pelo desprendimento. 

Talvez eu devesse me sentir um pouco melhor sobre 2020 do que me sinto. Aconteceram algumas coisas realmente boas. Das melhores e mais importantes que já me aconteceram, como sujeito. Mas eu não consigo não sentir tudo misturado. Eu sinto o desespero e o desamparo e a tristeza e as perdas e as mortes e o cansaço e a solidão e a impotência de todo mundo como se fossem coisas minhas, íntimas e isso tudo me pesa, me curva, me aparta, me separa, me impede o festejo do que quer que seja. 

Cheguei de onde saí. Me repito. Não vou festejar agora. Espero que chegue o dia. Que chegue a hora. Tô me guardando, talvez, pra quando o Carnaval chegar.

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esse cara suburbano coração ateu
ou
a história de nós dois
 
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quiron1

Quíron é um dos meus mais queridos. Viver com a dor sem deixar que ela o defina, não é fácil (inclusive tenho fracassado nisso miseravelmente em 2020). 

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Eu tenho costume do bom. Do fácil. Das despedidas leves. Sempre fui do abraço prolongado e da caminhada decidida. Nunca deixei passar a validade. Não sei porque me pesa tanto o braço nesse aceno entre nós.

 

 

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