Nós

Meu analista me perguntou se eu não sinto medo. Porque não falo disso. Não falo da minha morte, de adoecer, nada assim. Do que falo, o tempo todo, é de tristeza. Sinto a tristeza travando a garganta. Apertando meus pulmões. Ocupando peito, estômago, revirando intestino, acelerando coração. Sinto a tristeza escorrer pelos olhos. Sinto a tristeza enrijecendo nos músculos. Doendo nos ossos. Sinto a tristeza lancinante, que me faz encolher e chorar. Sinto a tristeza constante, quase um ruído de fundo. Sinto a tristeza deslizando na língua. Sinto a tristeza como odor no meu suor. Sinto a tristeza como pequeno desconforto diário, um sapato um tantinho apertado. E sinto a tristeza avassaladora, como uma inundação invadindo casa, estragando móveis, arrastando objetos e destruindo memórias. Sinto a tristeza como intrusa inconveniente, sinto a tristeza como companheira. Sinto tristeza como sombra, sinto a tristeza como reflexo. Sinto a tristeza como uma estranha e sinto a tristeza como íntima. Sinto a tristeza, sinto tristeza, sinto-me triste. Misturei-me a ela de tal forma que dizer a tristeza é dizer de mim. E isso me apavora. Esse é o medo do qual devo falar, talvez.

Comprei goiaba, kiwi, tangerina, abacate, manga. Preciso redescobrir sabor nos dias. Ou fazer uma sangria insólita.

O bom do dizer-se é que não se acaba.
A dor do dizer-se, também.

Quando eu estou muito, muito, muito triste, eu evito as coisas que eu sei que me fazem bem. Não leio Verissimo, não converso com amigos, não assisto Tudo bem no ano que vem. Eu não entendia o porquê, mas agora eu sei: tenho medo de que não funcionem, que a tristeza seja maior que eles. Tenho medo de perdê-los. 

Tem a tristeza e tem a dor. Todo dia, o dia dói muito.

Vai ter Mostra Krzysztof Kieslowski a partir do meio dia, no Telecine Cult, e os deuses sabem que vou mergulhar nela, só vou parar pra ver o Paulinho da Viola às 22hs (vou perder A Igualdade é Branca) e continuar com a fraternidade (que infelizmente é o último).

“Éramos nós”. 

Projeto meio gata: me enroscar no teu colo e ronronar.

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