Fragmentos da Infinitena

Estava passeando pelo meu instagram – a única pessoa que eu stalkeio sou eu mesma – e percebi como eu comia bem, até, sei lá, o ano passado. Uns pratos coloridos, com combinações de sabores, processos elaborados coisas assim. Não apenas o conteúdo (continuo comendo espinafre, cenoura, peixe, abobrinha, etc) mas o preparo, o cuidado, a apresentação. Continuo me amando (eu sou uma pessoa bem amável) mas tenho que caprichar mais na forma de demonstrar.

dance vinho

Uma atividade que me tranquiliza: alguém afiando o gume da espada.

O conto dez de dezembro, do George Saunders, é um negócio que fica mais e mais bonito em mim, quanto mais lembro dele. É meio mágico quando a literatura pega a gente assim.

O golpe, a eleição do presidente genocida e a pandemia me fizeram uma pessoa bem mais ranzinza. E depois que eu pego gastura…

Vinho, livros, máscaras, eu colaboro com a movimentação da economia.

Já cheguei na trigésima primeira newscoisa: Garrafinhas da Lu, se quiser assinar é só vir aqui.

Sinto falta da rua. Dos sons das conversas aleatórias nas calçadas. Dos cheiros no mercado do peixe. Das cores das roupas das pessoas, dos esbarrões acidentais, de comer bobagem nas lanchonetes de esquina. Até de me irritar em filas. Sinto falta vida num mundo meio desconfortável, mas tão rico e diverso.

Eu não sei viver esse luto. Mandei mensagem, chorei, confortei, mas acreditar, acreditar mesmo, que ele já não está, eu ainda não. Talvez em um Natal futuro, quando alguém disser: “podemos começar o amigo secreto, todo mundo já chegou” e o tio não estiver lá. Talvez aí. Talvez.

Passei muitos anos em análise e não lembro de ter chorado em nenhuma sessão. Voltei ao divã e, dessa vez, não teve uma sessão sequer que eu não tenha começado chorando.

É tanta muriçoca que eu tenho medo de não sobrar sangue pros exames.

Confesso que eu fico muito impressionada com a displicência com que pessoas não-negacionistas resolveram viver a vida nestes últimos tempos.

Eu só pedi um punhado de palavras e alguma delicadeza.

Eu não entendo. Mas eu não preciso entender. Preciso me colocar no colo, me embalar, afagar minhas costas, secar minhas lágrimas, servir uma canja, velar meu sono. E sobreviver.

amiga nao minta

2 comentários em “Fragmentos da Infinitena

  1. Mulher… esse texto me representa. Eu sei. Essa coisa não vai passar. Antes se transformará em um sei-lá-não-sei-o-que-sinto e eu sinto muito, mas vai ficar a raiva desse inominável e ela ainda engasga vez ou outra por conta de muitos.

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