O mundo lá fora, o mundo cá dentro

As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto
Como diria o Rogerinho: tá certa a indignação do Drummond
(e assim aceito, melhor, a minha)

Tá foda o mundo lá fora. Uma pandemia. Pessoas morrendo. Pessoas sendo contaminadas e tendo sua saúde futura comprometida. Um sistema de saúde promissor sendo rifado. Um governo todo formado por gente da mais baixa estirpe. Milhões de escrotos apoiando a barbárie. O desmantelo de várias políticas públicas importantes. A carestia. A miséria crescendo. Tá foda o mundo lá fora. Mesmo horrível, eu bem que queria. Mas não pode, não dá. Então, faço o quê? invento um bonitinho, claro. Dentro da minha cabeça. Um mundo em azul e encontros e risos e borboletas e esperanças e flores e lençóis frios e corpos quentes e, bom, um mundo pra eu ficar e me sentir melhor. Aí o que acontece? As flores se tornam carnívoras, as borboletas tem enormes presas e tudo arranha e dói e arde e o azul é movediço e não tem mais ninguém aqui, só eu e o meu medo e a solidão e a desesperança e os lençóis se enrolando em minhas pernas e me imobilizando e me puxando pro abismo e nenhum corpo outro, só a zombaria gelada do silêncio.

bandaid

Estou me alimentando mal, mastigo ansiedade feito chiclete.

Olha, um alguém morfina, que legal. Mas aí você precisa de doses maiores e mais próximas e cortam o abastecimento.

É seu jeito de suspirar e os olhos um tantinho fundos que me puxam pro abismo que é gostar tanto assim de você.

Eu só quero saber porque fomos tão distraídos e agora tenho que ter vontades em vez de ter memórias.

Pensando bem, meu problema é inveja. Vejo conhecidos “furando o isolamento” indo à praia tomar uma cerveja e comer um caranguejo ou almoçar sozinho em um restaurante com mesas na calçada ou casal indo visitar em jantar íntimo outro casal amigo. Eu sinto inveja. Inveja não dessas coisas, mas dessas aspirações. Por isso aí que descrevi ser o que é importante, ser o suficiente, ser bom o bastante. Porque pra eu furar meu isolamento de um jeito que me fizesse realmente bem, a ponto de compensar medos e culpas e tudo, era preciso que pelo menos umas, sei lá, quinze pessoas, no mínimo, furassem também. Porque o que eu queria era sair daqui, passar em Fortaleza, abraçar os meus, depois pegar um avião pro Rio de Janeiro e descer já em um abraço. Desse abraço eu queria pular pra rua de botecos no Centro – samba, gargalhadas, nenhum tira-gosto, cervejas, talvez o homem-aranha participando de um casamento- seguindo depois pelas ruas até parar naquele bar da mesa comprida (na Glória?), gente chegando, gente saindo, mais gente chegando, aquele abraço ainda do meu lado, esquecido do tempo, segurando minha mão às vezes só pra ter certeza que eu estou ali, conversas com cuspes saltitantes, gaitadas, gente vindo de São Paulo e BH e Recife pra esse encontro, o garçom meio perdido nos pedidos, a madrugada se esquecendo de chegar, entretida com a alegria da gente. E isso é a menor das aspirações.

Mas tem o amigo que faz rir. O amigo que conforta. Que sabe dizer a coisa in-certa e trazer os melhores links e lembrar as mais inusitadas músicas e fazer as melhores imagens. O amigo que ainda vai estar, no depois. Que bom que é saber você, querido.

Mandei fazer a caneca com a rosa.

Aí você acena e eu…

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