De vestido curtinho e sapatos vermelhos. Ainda viva.

A amiga disse: o importante é sobreviver e voltar pra contar a história.

A sorte é sua.

Faço longas cartas para alguém.

pésmar

A gente assim. Mesmo que nunca tenha sido. Eu sei tudo que não está na imagem. Sei os dedos entrelaçados. Sei o rosto de um virado pro outro enquanto o outro espia o mar. Sei o movimento discreto com que alternam o foco. E o riso no canto da boca quando os olhos se encontram meio sem querer, embaraçados de se quererem bem tanto assim. Sei o vento redesenhando a canga frouxamente amarrada no pescoço. Sei a bermuda discreta, a camisa que também é filtro e o gosto de protetor solar na curva do pescoço. Sei a impressão de que está tudo bem. A sensação de que devia ser sempre aquele momento. E, ao mesmo tempo, o gostoso de levar a cumplicidade por onde vão. Sei o morno da água e a surpresa gostosa de um e o sorriso convencido do outro, eu te disse. Sei o instante em que se desenroscam dedos e se parte, levando o sal, o horizonte, o azul, a saudade e a memória como uma liga a mais. Você faz parecer fácil. Simples. Óbvio. Faz parecer que sim. Queres. Quero. Queremos. Eu quase acredito. Suspiro.

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Eu gosto de tanto, nesta foto. Talvez tudo. Gosto do que está além. Que ela tenha sido feita em um dia especialmente difícil, entre muitos que não vem sendo fáceis de atravessar. Um dia em que o divã foi lenço. Um dia em que eu chorei. Tanto. Se não é fácil abrir portas e janelas, que dirá demolir muros. E, mesmo assim, o sorriso veio. Apesar de mim, dos temores, dos fantasmas. Ainda alguma alegria.

E gosto mais, gosto muito, do que está nela. Do cabelo branco, bem vistoso. Das marcas, todas: os pés de galinha, os riscos que são parênteses pro sorriso, as olheiras. Olheiras, claro, durmo tão pouquinho. Da sobrancelha sem forma, desajeitada e desligada, nem sei onde está a pinça. Muito menos sei usá-la. Gosto de ver o colo enrugando. E o decote, ainda amplo. Gosto de ter 45 anos e não saber passar o batom direito. Sigo tentando. Gosto das sardas, do pelinho da “minha barba”, das machinhas e sinais na testa. Todas as imprecisões, imperfeições, assinatura da vida que se inscreve em pele. Gosto do arremedo de covinha e dos olhos terem resolvido olhar pro mesmo lugar – dribles não intencionais no real. Gosto até do vermelho da rosácea, que se limitou ao rubor essa semana e de sentir falta dos meus cílios mais fartos e mais longos. Do sem jeito do enquadramento que mostra um nadinha de prateleira, que alaranja o fundo – vestígio das cores que ocupam a casa fazendo ponta na fotografia, que revela o amarelo de uma proteção que preciso e o pedaço de pau (sei lá como se chama) que seria rodapé na paredinha da sala, ali, ainda encostado no escritório.

Eu gosto de tanto nesta foto. De estar nela. De vestido curtinho e sapatos vermelhos. Ainda viva.

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