Lacinho vermelho

A pessoa arruma o quarto todinho, no capricho, e decide: nada mais de bagunça, quarto é pra ser espaço tranquilo, sei que lá, repouso, sei que lá, sei que lá, descanso. Um dia e meio depois está dormindo com catorze livros, dois cadernos, o kindle, um pote de lápis de cor e nem vou continuar.

Isolamento na quarentena dá nisso, a gente ocupa o outro lado da cama com o que pode, não com quem se quer.

A última vez que falei sobre isso, aqui, eram 80.000 mortos. Hoje já ultrapassamos 130.000 mortos no Brasil. Não tenho mais palavras. Parece que nunca acaba de caber mais dor no coração. Nunca esquecer: não são números. De vez em quando é bom visitar esta página: Inumeráveis. 

E o Pantanal queima. E o desmonte do serviço público. E a ameaça da reforma administrativa. E a privatização iminente dos Correios.

Queria mesmo era sentir o cheiro do seu cangote.

Rede na varanda, lua que míngua, bacalhau, café, café, café, bitucas, longas cartas pra ninguém, documentos antigos, algumas risadas – ainda sei rir, um alívio, notícias de outros continentes, o calor, os slides, as aulas, a raiva, a raiva, a angústia de esquecer o nome de alguém, um Pirandello, o desejo, o vermelho na conta chegando antes da hora, café, café, café, o israelita, uma dorzinha fina por baixo da onda avassaladora de dor que é atravessar cada dia, devia beber mais água, Otto, Otto, Otto, vinho, cerveja, mimosas, batata-alho-azeite, garrafinhas, o espelho quebrado, a vontade do mar.

Exausta de doer.

Cada vez mais e mais Belchior.

Daí a moça se apressa e enfia os pés pelas mãos.

Eu falo muito, mas tento não ser inconveniente.

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Atenção para a leitura astrológica:
Vênus em brasa na casa 69, rubro sentir, aquece, te deixa sem fôlego (pois consome o oxigênio), rápido queima, rápido apaga, termina em cinzas. Como eu morro de amor, pra tentar reviver.

O desejo: fechar os olhos e conhecer tua história lendo as linhas no teu corpo com o cuidado de dedos tão leves pra não borrar suas memórias, mas você se inclina e deixa seu corpo encostar com força no meu, como se aquele momento único pudesse reinventar o caminho que nos desencontrou em todos os passados e mesmo que todas as promessas sorridentes de contato se esvaneçam nos dias que serão sólido futuro ante esse agora que é só névoa e intangível e paredes e solidões e este encontro nunca haja e lábios nunca sejam beijos, já estive nesse abraço que existe pela palavra que encanta o mundo.

Uma camisola nova – e com lacinho vermelho! – é toda a aposta em algum futuro que consigo fazer.

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Hoje tá difícil, tá difícil de verdade. Tá difícil pra caraleo.

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