E na hora do enlace…

Seria só um assim, cerveja ou café, um chegando no depois do outro, o passo entre o contente e o incerto, o abraço desajeitado dos corpos aprendizes, sem um saber de onde colocar mãos e desejos. O sentar quase ao lado, a mesa quadrada, os joelhos se tocando na ponta dos noventa graus. As palavras, que nunca serão lembradas com precisão nos futuros, servindo de véu, enquanto na língua que insinua sua ponta úmida, no bater mais acelerado das pestanas, no entreabrir da boca, na pequena dilatação do nariz, nos dentes que mordiscam os lábios, na voz um tanto mais baixa convidando à aproximação, confessam-se.  Você não ia ler minha mão? E agora a gente acredita? Precisamos. Então, simO verso sobre a palma, uma pele seca e quente, a outra macia, o dedo percorrendo as linhas como se borrasse fronteiras. Entrelaçam os dedos, suponho. Pagam contas de bebidas que não beberam, comidas que não mastigaram, atendimentos que não precisaram, pois eram esperas e vontades e só. Vagam ruas. Procuram, enfim, reserva e meia luz e portas com chaves e camas, Num sem fôlego despem roupas e vidas lá fora e entrelaçam pernas e histórias. Sentem gostos e alegrias e se afogam e se perdem e se provam e se mordem e se tocam até que, quando já estão tão abraçados que não há espaço para culpa ou indecisão, se beijam. Sopro. Como se dessem a vida a uma frágil, delicada, rara possibilidade. E, libertados, morrem um pouquinho um no outro. E outra e outra e outra vez. No depois dos suores e cheiros e aconchego e cochilos, ela vê a réstia de luz avançar no quarto e tocar um pequeno franzir na testa dele e, antes que a preocupação que chega vire tristeza, ela espana com os cabelos a ruga e desce esfregando nariz no nariz e morde o queixo e beija o peito lá onde o coração soluça e distribui risadas e roupas onde foram carinhos. Se os corpos que voltam pro mundo não se roçam nem num acaso, é que já não precisam, tão dentro um do outro. Na frente do mesmo bar, um abraço, com corpos que já se sabem, nem despedida nem promessa. O incêndio de um amor.

118100178_3808671735814290_9185762264564844867_n

Acontecesse (Bruno Batista)

Se um dia acontecesse
De nós se amirar
Um cadinho que sêsse
E se acaso ocorresse
De tu se engraçasse
E eu correspondesse
E nós se aprumasse
E se desgarrasse
De qualquer devesse
E na hora do enlace
Eu não me furtasse
E tu me arrecebesse

E nós se empariasse
Tu me trespassasse
Eu não me contesse
E eu mais tu se embrenhasse
E nem assuntasse
De tanto quererse
E adispois começasse
Teus óio virasse
Minhas pernas tremesse
E se o Diabo gostasse
Deus escutasse
E um anjo descesse.

E achegasse num susto
E com muito custo
Nós se apercebesse
E ele arresolvesse
Arrastar asa pra tu, e eu vêsse
E o safado eu maldasse
(Que Deus perdoasse)
Eu ensandecesse
E o anjo depenasse
Ele gargalhasse
E arrespondesse:

“Fui pro céu por acaso
(Um caso com uma santa estrangeira)
Os donzelo odiaram
E me agarraram com uma padroeira
Então fui rebaixado
Pra Anjo da Guarda das Virgem Embusteira
E agora depenado
Vou virar beato
Das alcoviteiras”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s