Cem

“As aparências enganam mas enfim aparecem,
o que já é alguma coisa
comparado com outras que nem isso”
Leminski

100 dias, pelas minhas contas. Uns 100 anos de solidão, fácil, fácil.

A pia está limpa mas a casa continua uma bagunça (atualização: a pia estava limpa, quem mandou não publicar o post naquela hora?)

Quando 20 anos parecem uma semana. De onde mesmo eu tirei essa ideia de votar à análise?

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Esses dias amiga publicou um link que dizia que refizeram as contas e a previsão dos maias pro fim do mundo havia sido corrigida, não era 2012 mas esta semana. E tá correto, né? O mundo acabou. Não foi em fogo, conforme prometido no pós-dilúvio, foi afundando na ignorância. Areia movediça de capitalismo, indiferença, crueldade, arrogância e uma certa tosquice de se achar mais merecido. Quanto mais a gente se mexe, vai a shopping, festa, suruba, vai só ali dar uma voltinha na esquina, apenas um cafezinho com os amigos, mais rápido a gente afunda.

Eu não aguento mais a expectativa. Vivo tensa como uma corda muito apertada de um violão. Qualquer hora, arrebento.

Peguei tarefa de casa. Já esqueci o que é.

Como saber que é junho sem fogueira, sem canjica, sem vatapá e paçoca, sem forró machucando no miudinho, sem bandeirinha, sem mugunzá salgado, sem madrinha de fogueira, sem sanfona, sem chita, sem rua, sem casamento, sem sardinha, sem marcha ou quadrilha… não há calendário que me convença que é junho, que já foram antônio e joão e logo chega e passa Pedro, não há calendário que seque o rosto, não há calendário que console, conforte, não há dia depois do depois que compense a festa que não foi, sinto que se esgarça a relação linear com o tempo, presa num infeliz dia da marmota em que não aprendo nada com o vivido, mas os terrores se renovam, se aprofundam, se agudizam.

Um analista politizado é outra coisa, bebê.

Cansada de perder o bonde, o timing, o ritmo, a crista da onda. Mentira, cansada de saber que perco. Quando não sabia, não incomodava. Covarde? Sim. E preguiçosa. Pode alinhar defeito, o que falta em classe e virtude eu preencho com mau jeito. Um ou outro olhar generoso e alguma vontade de agradar eventualmente me mantém no rumo. Mas ando esmorecendo.

É engraçado rever episódios da temporada 1 de Criminal Minds e perceber como o Reid tinha um papel “pequeno” (mas já era meu favorito) sabendo o que ele representou nas temporadas seguintes e no que se tornou nas últimas. E porque eu tô falando isso? Por nada, não, só pra ter motivo de espiar fotos dele no google.

Não tenho mais nada pra dar. Nenhuma palavra, nenhuma beleza, nenhum conforto. Talvez eu ainda. Mas nem sei.

Uma viagenzinha, mesinhas na calçada, uma noite que não acaba. Queria.

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Então eu vou deitar e dormir. Só me acordem quando for dia. Não um, aquele, o dia do riso nas ruas, dos corpos em festa, dos gostos e dos gozos, da música nas praças e da fonte jorrando cerveja. O dia depois do depois.

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