Forró e outros entranhamentos

Dançando na sala como se fosse verdade que seremos num mesmo salão, suor, ritmo, o roçar, pele, cheiro, vontade.

Todas as fogueiras que não foram na festa de Santo Antônio, queimam em meu peito e sua fumaça embaça meus olhos.

A quarentena me levou os filmes, as séries. Deixou, com parcimônia, livros. E me fez ser a pessoa que escuta música e monta playlists. Uma estranha.

Em algum lugar de mim, uma esperança. Em algum lugar de mim, uma saudade. Em algum lugar de mim, rumores, memórias, histórias. Nesse lugar, ou em outro? desejos. Que não ouso nomear. Em algum lugar de mim, risadas, portas e janelas escancaradas. Há cores e cheiros, como em uma cozinha. Em algum lugar de mim, sombras. E dores. E corpos estendidos, eu ignoro os abismos. Os que me acompanham, às vezes, precisam saber voar. Eu aprendi a morrer, já que não me cresceram asas. Em algum lugar de mim, o pranto, a perda, o peso. Em algum lugar de mim, a coragem. E os passos, que um dia eu quis que fossem de bailarina. Em algum lugar de mim o que se joga, o que procura, o que anseia. Em algum lugar de mim o que aceita, o que liberta, o que permite. Em algum lugar de mim, as palavras. Até que em algum momento, eu não esteja em lugar algum. Aí, o silêncio e fotos desbotando.

Fiz nhoque de batata-jerimum e duelam em mim um certo orgulho e a estranheza por passar tanto tempo pra preparar batata.

Pensando (e como não?) em tudo do agora, lembrei das crianças presas na caverna inundada na Tailândia, o quanto parecia difícil o resgate e como uma série de ações bem planejadas e bem executadas acabaram por salvá-las (não sem a morte de um dos mergulhadores voluntários). Não, não elaborei nada sofisticado, só vou deixar essa memória aqui, pra me lembrar do que não está sendo feito e dos efeitos que poderia ter.

Me enervam os novos amores, me cansam os velhos. Encontro algum conforto no quase não-desejo bem humorado que vai e vem em preto e branco.

Eu digo que não vejo live mas basta o Diogo Nogueira dizer “a” e eu tô lá, toda molinha. Também dancei com o Waldonys e, de vez em quando, apareço na sala da Teresa Cristina.

Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, há gente de uma matéria indefinivelmente especial.

O Dunker disse: “sem a palavra o amor não acontece”. É ao dizer você, que me torno cativa.

Eu sei, eu sei. Não é culpa sua. Nem minha. Nem nossa. Apenas não é. Não somos. Reza quem é de rezar, brinca aquele que é de brincadeira… é que eu sou festa pra uma noite inteira, mas você tem que sair logo, trabalha cedo amanhã.

É bem divertido ver um conto espalhado ao redor de uma frase que foi sua.

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Assim: acordar cedo e levantar tarde, porque sempre há o que fazer com o tempo na cama. Você, cozinha. Eu, banho. Você, chá. Eu, café. Você, cereais e iogurte. Eu, pão na chapa. Você, em pé, o ar pensativo me contando que já não está aqui, deve estar no escritório ou no fórum, uma lista de tarefas e obrigações fazendo sombra em seu rosto. Eu, seu roupão grande demais, uma perna dobrada em cima da cadeira, o queixo apoiado no joelho, os cabelos pingando, ainda estou na cama. A única refeição que fazemos em silêncio, talvez por estarmos em lugares diversos. Você deixa sua xícara sobre o balcão e avisa do atraso, do banho a tomar, do tempo que precisará ficar fora,  que traz o que fazer pro almoço, mas suspende palavras e ato, para atrás de mim, escorrega os dedos longos entre os fios e sacode meu cabelo murmurando alguma coisa sobre não ficar molhada no frio e eu me inclino pra roubar um pouco de você do dia e suas responsabilidades. Eficiente, você logo segue e eu mais uma vez não digo que fica mais frio quando sua mão me toca e me deixa mas é tão bobo que sinto renovada a alegria de esquecer sempre e tanto. Escuto seus ruídos no banheiro, as roupas sendo tiradas, o chuveiro ligado, pego outro café, vou pra varanda dos fundos e acendo o único cigarro do dia, fazendo um smog de névoa invernal, o ar quente da minha expiração e a transmudação do fumo, espirais de futuros impossíveis.

 

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