Sueli ou as paixonites nossas de cada dia

Paixonite é uma coisa séria, tinha escrito um negócio imenso, com cara de blog, cheiro de blog, jeito de blog, mas não aguentei o enlevo da newscoisa e mandei por lá mesmo (mas deixei salvo no rascunho daqui, porque a terra é redonda, capota e sei lá quanto tempo dura essa brasa).

Uma verdade intolerável: Não importa se os finais são felizes, mas se são bem roteirizados.

A próxima semana será louca. As próximas, talvez. Eu me sinto fazendo vários nadas e mesmo assim não estou cabendo nem nas horas do dia e me meti a lecionar disciplina com 60hs em 6 semanas. Como diria no Ceará: queeeeima, quengaral.

Diz o Darín que depois da pandemia vai procurar sua namorada brasileira e eu já estou mudando meu nome para Sueli.

Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam. Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as pessoas. No ônibus circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, espiando pessoas entrarem e saírem do ônibus nos variados bairros da cidade, seus sorrisos e ansiedades e pesos carregados e pares e afetos e cansaços. Ou as horas passadas nos bancos das praças, a escolha das profissões, o turismo errante. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo viver sem roteiro. Ou sem trilha sonora. Baixinho, escuto o vento assoviando uma melodia do Morricone. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo, ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo outro café e olho, olho, olho. Quanto mais vejo gente, mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados, tensos, animados, atrasados, doloridos, trotando no peito. Ser gente é um aprendizado. Que me inquieta. Não sei mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem um repentino sentido. Viver é esse desfile de vidas das quais quase tudo ignoramos, na rua os transeuntes apenas surgem e desaparecem mais rápido. No dia a dia, alguns já estavam quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós, o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Mais um cigarro, outro café ou um licor? Lembro o que esqueci: o salto alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento, impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. Uma taça de vinho e a conta. Há de se estar sempre pronta pra partir. Na notinha que o garçom, figurante elegante, traz: café, café café, nem conto quantos. Deixo o dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Devia saber qual meu melhor ângulo, mas de que adiantaria, também não sei onde bate a luz. Respiro e lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando, ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de quem pareço intuir alguma coisa, mas é breve e logo volta a seer mistério, uma mulher de ar confuso, olhos tristes, roupas desalinhadas. E sapatilha vermelha. Vitrine.

Ontem aquele homem asqueroso arrancou as cruzes da areia na manifestação silenciosa do Rio de Paz. Hoje um grupo invadiu hospital, chutou portas nas alas de pacientes com Covid e derrubou computadores. Eu não tenho mais condição de lidar com este Brasil.

Eu pensava que nunca tinha te dito um eu te amo. Acho que não disse mesmo, mas escrevi. Encontrei entre cartas antigas (posso chamar email velho assim?) e me espantei de ter sido essa coragem.

Instagram é um perigo para meu coração bandoleiro: dois, três dias seguindo alguém desconhecido e eu já me sinto íntima, mandando coraçãozinho.

Tenho tirado mais selfies. Nem sempre ficam boas. Ontem tirei, sem querer, fotos das minhas pernas. Ficaram ótimas.

A gente vai aprendendo a morrer. A gente, como você, sou eu, sempre. Onde diz sempre, quero dizer, quando for aqui. Confuso, não é? Ando me sentindo assim. Você também? (neste caso, excepcionalmente, você não sou eu, tese do Nerson da Capitinga). Mas, dizia eu, vou aprendendo a morrer, que é uma outra forma de dizer seguir em frente. Ou apenas seguir, sem muito senso de direção.

Ontem foram mimosas e caponata e patê de salaminho e eu quase truquei o Tom Jobim e acreditei que era possível ser feliz sozinha (e é, tipo morar só, viver só, ser uma só – que é o que todos somos. Mas também é preciso o faz de conta dos encontros, as ilusões de encaixe, o sorriso bobo quando você disse que a gente se entendia).

De tudo que foi na newscoisa, mantenho duas verdades aqui:

É muito gentil da sua parte me emprestar roupa e deixar entrar no salão iluminado, mas meu corpo é grande demais, minha voz é falha demais, eu vim de nenhum lugar, não tenho horizonte, não trago ouro nem incenso nem mirra e acabo esbarrando na mesa, derrubando alguma coisa, derramando o vinho na roupa, cruzando a perna e revelando o furo na sola do sapato, não adianta o disfarce nem os enfeites, meu pé não é do tamanho do seu.

Quem só vem por aqui e quer saber da newscoisa: https://tinyletter.com/Garrafinhas_da_Lu

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