Espírito dos Tempos

1.262 mortos oficiais (porque a subnotificação está comendo de esmola). Passamos de 30.000 mortes, o país devia estar de luto, mas seguimos, imperturbáveis, com tendência a depreciar e desprezar a humanidade do outro.

Todo dia eu tento encontrar um jeito de viver esses dias que temos pra viver mas reconheço a minha incompetência. Eu sentia muita tristeza. Mais tristeza que tudo. Aí passei a sentir mais raiva que tristeza. Tanta, tanta. E voltou a tristeza, mais cruel, mais afiada, mais espaçosa, mais exigente.

O quanto é ridículo ficar falando da minha, minha, minha, minha dor?

Creme de abacate com colher de sopa e café.

Dois livros, muitas lágrimas, uma reunião, três artigos e a escrita de um conto que, de certa forma, parece acontecer em um universo paralelo.

Pensei em fazer oficina de escrita porque, né, se nada mais resta, ler e escrever. Ou, como meu pai me aperreia: escrever pra ler. Mas a vida deu uma endoidada (ia escrevendo enlutada, muito bem, seu inconsciente), então parece que não.

Encontrei uma boa gravação de um dos episódios da Comédia da Vida Privada, justamento um dos que mais gosto. Foi ontem de madrugada e já fui assistindo. Aí vi hoje de manhã também. Vi de novo no fim da tarde. Estou planejando ver mais uma vez, daqui a pouco. Cada um com sua droguita.

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“eu fui namorada dele, mas faz horas”

Enquanto eu for, meus amores que foram, são. Somos. Todo amor é eterno enquanto eu dure.

Não sei se é por ser madrugada, por ser em língua outra, por ser memória, mas eu nunca fui mais linda e mais eu que nas suas palavras rabiscadas em dedicatórias de livros e discos. E a gente nem se amou.

Se você que não sonha – quase nem dorme – acorda sonhada com uma história que, nunca, nunca, não vai ser, não vai dar, mais que improvável, quem você pensa que é, rá, então talvez seja hora de se beliscar.

Como descobri que só vou conseguir, no agora, escrever aqueles textos de batom borrado, garrafas vazias, lençóis amarfanhados, cotovelos doloridos, olhos ressacados, horizontes esfumaçados e afins, fiz playlist no youtube chamada manguaça. As colegas de blog que prendam o fôlego que o mergulho vai ser punk.

Daí que você tem uma boca imensa e um filtro desgastado. E diz que ah, queria. Fazia. E tudo. E ela diz: te apresento. E você ri. É brincadeira, claro. Mas você cora. É a rosácea, não sou eu. Claro. Você muda de assunto. Você volta pro assunto. É brincadeira. Claro. Morde a língua.

Não alimente a besta, luciana, ela te devora de dentro pra fora.

Entreabrir a persiana ou escancarar a janela não faz diferença, será dia enquanto for e, depois, não mais. Vale o mesmo pro amor, acho. Das coisas que eu gostava em você: o sorriso bobo no meu rosto. Agora, no espelho, me olha de volta um vazio compenetrado.

Era uma vez um homem-lua, uma cama grande, janelas com vista pro mar, roteiro do programa de jazz em rabiscos, mãos gentis e pratos de panqueca. Era uma vez um homem-lua, óculos redondos, peito amplo, prata nos pêlos. Era uma vez um homem lua que enfeitiçava relógios em tardes preguiçosas em um tempo que já era tarde demais. Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste de quem sabia que mesmo sem saber quantos dias seriam, conhecia que seriam poucos.Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste  de quem compraria passagem, arrumaria mala, minguaria aqui e levaria a vista pro mar por trás de pálpebras úmidas. Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste de quem abriria espaços, estenderia a mão, faria convites que veria recusados. Era uma vez um homem-lua e sua voz doce e triste de quem partiria sem querer ficar. Sem querer que ninguém ficasse.

Eu vivi tantos amores eternos que só Vinícius na causa.

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É claro que eu acho que todo mundo devia ficar bem guardadinho dentro de casa, sem ir pra rua nem nada, até a pandemia entrar em outro estágio (controle, vacina, eteceteras). Daí eu lembro que tem gente sem casa. Tem gente sendo assassinado, dentro de casa, pela polícia, se a casa for na favela ou periferia. Tem indígena e quilombola sendo perseguido porque quer preservar sua casa. Tem gente obrigado a sair de casa porque as regras de confinamento tão relaxando e a pessoa não pode perder o emprego que sustenta a família. Tem gente que não recebeu o miserável auxílio de 600 reais e tem que ir pra rua vender o que puder ser vendido. Tem gente sendo pressionado e ridicularizado pelo “medinho de uma gripe” porque esse é o discurso do governo federal. Tem a ameaça à educação todo tempo, com a gente em casa ou não, via enem, future-se, livro didático pra criança de educação infantil. E< aí eu acho que temos, sim, que ficar dentro de casa guardadinhos, mas que também temos que pressionar o governo em todas as suas instâncias pra que isso seja possível pra maior parte da população. E que lindas as manifestações antifascistas das torcidas organizadas e que lindo o ato Vidas Negras Importam, hoje, no Rio. Gente de coragem. Gente de luta. Gente que me anima a ser gente. É pra isso o ficar vivo.

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Coloquei essa imagem como foto de capa lá no FB e já teve mais de 1.000 compartilhamentos. Isso é que é espírito do tempo, hein.

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