Teresa, unhas vermelhas e toda a dor todo dia

Você só quer me comer. Acho pertinente. E fico. Podia ser tão melhor, depois. Mas você nem cruza a vista. Queria explicar que sou a Teresa naquele momentinho que Tomás a vê dançando com o colega. Eu me ajusto. Não tinha de ser você. Mas é. Era. Foi. Você podia aproveitar mais.

Fiz uma lista no spotify e depois reparei que nunca fiquei tão nua.

Vocês também tiram o sutiã pra respirar melhor?

Um grito até que teus ouvidos não soubessem ouvir outra voz que não a minha.

O engraçado de fotos antigas é re-conhecer que fui uma mulher de unhas vermelhas.

Nelson Rodrigues diz que “depois de matar, o criminoso se torna secundário, ou nulo, e repito: some como se jamais tivesse existido”. Parece-me, a princípio, que assim é com o escritor. Ele não importa, o que importa é a sua escrita. Ou, antes, o que importa é o que está escrito. É o texto que é, não o autor. Digo, reluto, e retorno. Flaubert me vem: Madame Bovary sou eu. O escritor é o criminoso rodrigueano, mas é também a vítima. Ele está no dito mesmo que não se confunda com ele. Quem se equilibra na ponta da pena e faz, dela, lâmina, pra escrever o último bilhete. Se possível, unhas vermelho sangue.

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Tem coisas que pararam de me magoar e eu faço apenas um juízo estético mesmo. Aquele “que deselegante” encontrou seu lugar em mim.

Status: murchando.

era uma vez uma esperança. era.

ganhei a serenata. se eu não fosse quem sou, ficaria mais feliz?

não é que eu quisesse comer cheesecake. eu queria era sentar no apertadinho do “Melhor Bolo de Chocolate do Mundo” depois de bater perna em Campo de Ourique.

Me mandaram me cuidar, comer e tal. Obedeci. Uma vezinha só no dia, mas ganho estrelinha pela intenção, acho. Eu tenho um certo receio de comer/fazer as comidinhas que gosto. Por um lado eu sinto que me confortam, me acompanham, me sustentam. Mas tenho medo de num dia que será – se vierem a ser – elas saberem sempre a solidão, angústia e perda.

De tantas coisas que sinto nessa quarentena, o que não sinto é tédio.

Não tivemos, não temos e não teremos ações que possibilitem à maior parte da população ficar em casa. Não tivemos, não temos e não teremos ações significativas de proteção, cuidado e amparo aos profissionais dos serviços essenciais. Não tivemos, não temos e não teremos um governo federal que coloque o Estado à disposição para cuidar, proteger, zelar pela população. Resta ficar apelando para a sensibilidade individual dos poucos que podem, podem inclusive ficar em casa. E isso faz tudo doer ainda mais. Mais de 1.000 mortos em um dia. E todo mundo falando em reabertura. É angustiante. Lá fora Polícia Federal, operações com mortes no Rio de Janeiro, o policial branco matando um jovem negro nos EUA. Que ainda seja a vida de sempre é espantoso. Mas me expresso mal: a morte de sempre. A indiferença de sempre à morte de quem “não importa”.

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