Eu-nírico*

Nos meus blogs, tudo é ficção, quase nada é literatura.

A história da minha vida: dar mais do que eu pretendia, menos do que esperavam.

Eu poderia te amar, mas nem eu nem você sabemos ao certo o que isso quer dizer.

[haveria muitos beijos. e abraços. e cafunés. e pernas enroscadas. e toques, muitos toques. mãos que se encontram meio sem porquê. e cafunés, eu já disse? e nariz fazendo cócegas. e abraços no meio de uma praça, apenas para rimar com o tempo que já foi – ou que podia ter sido]

A verdade é que estou precisando de mar. Deixar arder o sal nas feridas. Mergulhar e confundir maresia e lágrimas. Lavar a alma ou tirar a areia do biquíni, sei lá.

Descobri que, durante toda a vida, plagiei – mal – uma escritora que nunca havia lido. Uma escritora que me faz colocar sapatos vermelhos para lê-la ou dela falar. Juro. Acho que é o jeito que ela usa os adjetivos.

WhatsApp Image 2020-05-16 at 00.52.00

Quando você pensa em Silvina Ocampo você pensa em… inquietude, perversão onírica, cores, perturbação, devaneio, estranheza, espelho, primeira pessoa, primeiro a pessoa, desatino, sombras, desejo e uma certa crueldade.

Tem aquele moço, não, não, a bem da verdade, teve aquele moço que tem até apelido no meu rol de afetos: enfiada de pé na jaca. Tem um moço, bem moço. O interesse é muito, a energia é pouca. Tem o moço de sempre. Tem o moço do quem sabe. Tem o moço do e se tivesse sido. Tem o outro moço, nem tão moço, nem tão paquera, outra vida, outro tempo, responsabilidades, mas tão boa a dança. Dois pra lá, dois pra cá, de sapatos vermelhos, claro.

Era só chegar no bar. E sentar ao lado. E pedir a cerveja. E contar uma história repetida. E de novo. E chegar mais perto pra ouvir melhor. E falar no ouvido, porque há muito barulho. E soprar, mornas, as palavras, e encostar a língua de leve no lóbulo. E sentir a pele arisca. E encostar joelho. E dispensar um copo e beber junto. E sentir o corpo úmido. E esbarrar mãos. E já nem lembrar qual o assunto. E entrar no táxi**. E encontrar lábios. E chocar dente. E rir um pouco. E pegar o jeito. E encostar o que der de pele. E sentir-se lânguida. E ficar feliz de conhecer esta palavra porque o corpo todo está pesado, mas vivo. E decidir. Sobe, segue, despede-se? Não importa, a memória é aquela ilha de edição.

Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito envelheci. Foi assim com M. Duras, eu jurava que tinha sido assim comigo. Mas não, apesar de na minha vida, também, muito cedo ser tarde demais, e sempre sentir-me um tanto mais velha do que o que os anos contavam, meu rosto só mudou aos 40. Mudou tudo de uma vez, ângulos, expressões, textura. Ainda estou aprendendo a ser essa outra mulher. Que tem seu charme, mas é um charme outro, tal como um esgrimista que muda do florete para o sabre e está descobrindo como manter a elegância.

Eu queria ter te amado melhor, sabe. Não me entenda mal, eu não queria ter te amado mais, nem em duração nem em intensidade. Eu te amei inteira, eu te amei em cada linha escrita, eu te amei em cada dito ou escuta, eu te amei no sono e te amei no sonho, eu te amei em lábios e pele e ânsia. Eu te amei tanto. Mas sim, eu queria ter te amado melhor.

***********************

Os roteiristas deste programa tem toda minha admiração. A lista de livros, a relação da arte com a morte, a homenagem a Aldir Blanc e todos os outros, a canção do Tom Zé cantada em família. Tudo isso me fez tão bem. Porque não é negar a dor. É olhar no olho do medo, da perda, da raiva, da finitude e reinventar em beleza.

 

(tem umas pessoas públicas que eu admiro pelo que produziram, pela sua arte, pela sua voz, humor, talento, etc. e fica nisto, admiro, elas lá, eu aqui. tem outras que além disso ou apesar disso, eu sei, eu sinto, com convicção, que seríamos próximos caso nos conhecêssemos (me deixa). O Gilberto Gil é assim. O Caito Mainier. E tem aqueles que eu nem sei se seríamos amigos e tal, mas tem hora que eu bem que gostaria. Como o Gregório. Hoje eu quis muito tomar um café na casa dele.)

***************************

*Um moço inteligente, um dos melhores em trocadilhos – bobos ou sabidos – enquanto se conversava sobre a escrita de Silvina Ocampo, soltou essa: ela não tem eu lírico, tem eu-nírico. Avisei que ia roubar. Roubei.

** A paixão tem este sentido de urgência. Um livro que me tocou muito se chama “O Repouso do Guerreiro”.  Logo no começo da história, quando está se envolvendo com Renauld, a narradora diz:
“— Aliás, vamos tomar um táxi. É bastante longe.
Oh! Como é longe! O tempo é desmesurado. Dez metros, eu não os faria a pé. Só percebo o minuto seguinte a uma distância inacessível, nunca o atingirei.”

5 comentários em “Eu-nírico*

  1. A memória é essa ilha de edição. Eu estava pensando nisso ontem, embora não com essas lindas palavras. Deve ser porque eu estava tomando chá ao invés de vinho. Quem sabe vinho hoje, para anestesiar os abraços na praça que podiam ter sido, mas não foram porque tarde demais.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s