America’s Next Top Model ou Outras questões relevantes na quarentena

Quarentena. Isolamento Social. Lockdown. Ficar em casa. Não sair, não receber. Tem muita coisa implicada nisso, quem mora com criança, quem mora com idoso, quem mora em casa pequena e com muita gente, quem nem tem canto pra morar, quem mora com trabalhador da área da saúde ou de serviços essenciais… e tem a especificidade de quem mora só.

Morar só, neste período, tem algumas vantagens, nem preciso listar, cada um é capaz de imaginar. Mas depois de um certo tempo se acostumando com os “ritos” para evitar o Covid, depois que a tristeza e a raiva já tomaram quase todo o espaço da agenda, depois que a gente consegue não morrer de exaustão mental trabalhando online, depois que se estabelece uma dinâmica pra falar com familiares e amigos e tal, depois chega ela, né, e dá aquele toque que ainda tá por aqui. Ela, a libido.

(na verdade verdadeira eu coloquei depois pra dar um ritmo ao texto, cada qual sabe do seu cada qual, o que sei de mim é que ela, sempre. Mas, camarada, sabe ser discreta quando necessário)

Mas, dizia eu, a libido, ali, pedindo, exigindo, implicando, incomodando. E o tinder disponível para o mundo todo. Aqueles moços de sempre tudo no alvoroço, também eles quarentenados. E, quem sabe, aquele moço que nem era opção pois vivendo no reino tão, tão distante, mas, agora, não importa se no quarteirão vizinho ou lá no extremo de outro país, a impossibilidade da presença física é a mesma. Todos se tornam possibilidade. No primeiro momento isso me parece vantagem já que sou boa de papo (não procurem modéstia aqui, não trabalhamos) e, pensei, papo é basicamente o que se pode ter quando ado, ado, ado, cada um no seu quadrado.

Rá. Bobinha. Porque as pessoas querem ver, né. E eu não vou lembrar (nem vou procurar agora, pois meia noite e meia) se é Darian Leader no seu Por que as mulheres escrevem mais cartas do que enviam? ou é Franceso Alberoni n’ O Erotismo, mas um deles fala de uma posição erótica masculina ligada à visão e uma posição erótica feminina mais tátil (posição masculina ou feminina não entendida como determinante e exclusivamente vinculado a homem e mulher). O lance é que chega a hora de dar um oi ao vivo ou mandar uma fotinha do que-você-está-fazendo-neste-instante. E e nem estou falando de quem vai além no jogo de sedução, estou tratando só do básico da conexão mesmo. As pessoas querem ver e ser vistas.

É neste momento que eu lembro que eu assistia America’s Next Top Model sempre muito impressionada não com a aparência das pessoas, não com o mundo da moda, não com a competição, mas com o conhecimento e o domínio que as e os modelos tinham do seu próprio corpo e de como ele (corpo) se apresenta ao mundo. Algo que eu nunca, nunquinha, tive. Talvez me atrapalhe o fato de que, na vida, eu nunca liguei para espelhos. Já passei mais de um ano sem nenhum espelho na casa, nem daqueles pequeninos, do banheiro. Não faço idéia de como meu rosto fica quando estou com raiva ou triste ou enigmática ou whatever. Sei que fico de boca aberta quando estou absorta, talvez por causa dos problemas respiratórios da infância/adolescência. Controle corporal, então, nem pensar, eu tenho que raciocinar pra lembrar direita/esquerda. Daí eu realmente me impressiono com a forma como elas modificam as expressões no rosto, posam com o corpo todo, controlando mão e joelho e cotovelo e anca e tal.

Eu e meu corpo temos uma relação bem boa. Gosto dele, aprecio e respeito como ele é, ele me retribui com prazer e tal e coisa. Acho vantagem. Sou razoavelmente bem informada e, principalmente, eu o sinto. Sinto como ele sente, sinto quando ele sente, sinto o que ele sente. Sinto. Mas, né, não faço idéia de qual meu melhor ângulo (embora saiba que tenho um, como dá pra notar nas fotos, só nunca me lembro de pensar qual é e se penso, não lembro), não sei como aproximar a câmera ou mantê-la afastada, não sei como evitar tirar uma foto ótima e perceber que a toalha aparece estendida no corrimão da escada, não sei se é de baixo pra cima, de cima pra baixo, da esquerda pra direita, de cá pra lá ou vice e versa. Não sei porque parece que tenho 32 rostos diferentes, desde um do queixo mais comprido que de um cavalo de raça até outro redondidnho que nem bolacha Maria. Não sei manter-me na frente da câmera enquanto falo sem mexer braços e pescoço e levantar e sentar e nunca parar. Esqueço de olhar pra o buraquinho da câmera e não pra tela do celular ou notebook. São tantos detalhes. Pra que lado virar o rosto pra pegar a luz? Como posicionar o tronco pra dar aquela valorizada no decote? Onde colocar o celular pra tirar selfie sem parecer que seu braço tem o dobro do comprimento do seu corpo ou a metade do que seria razoável? E, pelamor, como assim procurar a luz?

Zélia Salgado | Enciclopédia Itaú Cultural
Mulher no Espelho – Zélia Salgado

Quando o mundo era outro, aquele que costumávamos chamar de “normal”, isso não era questão, eu ligava a câmera de qualquer jeito, mandava um oi e daqui um tempinho tava no boteco ao vivo e a cores, com meu corpo desastrado do jeitinho dele, mãos pra todo lado, cheiro, textura, voz, meu corpo e o apelo que ele tivesse. Mas, no mundo que é este,  não há futuros envolvidos. Não tem encontro, boteco, passeio, viagem, não tem falar baixinho no ouvido, não tem mão se esbarrando, joelho se encostando, não tem um copo de cerveja pros dois, não tem o apenas um corpo agindo no mundo.

O que uma histérica quer é ser querida (uma, ressalto, não “a histérica”, uma a uma é assim que se conta, que a gente se dá conta, sendo esta uma, quem se enuncia) e a pressão da libido fungando no cangote, olha, quem tem seu mozão juntinho no isolamento, aproveita, sério mesmo, porque não está sendo fáceo.

4 comentários em “America’s Next Top Model ou Outras questões relevantes na quarentena

  1. Só lembrei da musiquinha (ruim mas eu gosto porque me faz ter 18 anos de novo) do Leo Jaime e Kid Abelha:
    Eu tenho a pose exata pra me fotografar
    Aprendi nos livros pr’um dia usar
    Um certo ar cruel de quem sabe o que quer
    Tenho tudo ensaiado pra te conquistar
    Luz do fim de tarde, meu rosto encontra a luz
    Não posso compreender não faz nenhum efeito
    A minha aparição, será que errei na mão?
    As coisas são mais fáceis na televisão…

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  2. Eu não boa com espelhos e nunca entendi uma mulher não conseguir evitar olhar para um. E como hipnose ou algo assim. Espelho, para, mexe no cabelo, confere sei lá o que no rosto, na roupa e eu lá a observar tudo isso. Sei sempre onde está a esquerda e isso deveria naturalmente dizer onde fica a direita. Não diz. Não tente entender. Sempre que alguém diz a direita, me perco. Enfim, gosto de tudo em mim, até das esquisitices, principalmente delas.

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