De perto, ninguém é

Se você entrasse na minha casa, agora, ia perceber, já na entrada, em cima do aparador, um frasco de álcool gel. Esticando a vista, olhando em frente, em cima da mesa da cozinha, três ou quatro pacotes de farinha de trigo, um de feijão, milho, massa de lasanha, pacote de papel toalha, um vidro de azeite e mais um monte de outras coisas, como se alguém tivesse acabado de chegar do supermercado e estivesse desfazendo os pacotes. No chão do escritório, sacolas com outras compras “de castigo”, antes de serem higienizadas para serem utilizadas.

Um balde de roupa suja fica do lado da porta da cozinha, pelo lado de fora, quando termino de higienizar qualquer coisa, me dispo ali mesmo antes de entrar em casa, pelada. Há um par de chinela também ao lado da porta, ela é usada só do “lado de lá” e tem a outra pra usar do lado de cá.

Se eu pedi as compras na quinta passada (e elas chegarão só daqui a uma semana) e nesse ínterim percebo que esqueci algo como fio dental ou creme de leite, paciência, são cerca de três semanas antes de pedir qualquer coisa de novo. Eu podia pedir o fio dental na farmácia, claro, ou já fazer nova encomenda ao mercadinho. Podia pedir comida diferente, quando enjoo do meu tempero, pelo ifood. Podia guardar as compras todas nos potes e prateleiras da cozinha, podia arrumar a sala. Podia encomendar pão.

Moro só, seria razoavelmente confiável me proteger nestas interações, máscara, álcool gel e afins. Podia deixar minha casa arrumadinha, “aproveitar o tempo”, guardar tudo nos seus potes e prateleiras. Se se tratasse só de mim. Se não pedir coisas o tempo todo pela internet tivesse relação com mais ou menos conforto e não com diminuir a circulação das pessoas.

Podia manter uma rotina, como vejo tanta gente recomendando por aí. Mas eu não consigo. Porque o que estamos vivendo, e apesar das facilidades da minha posição eu não esqueço que também estou vivendo isso (com as especificidades que meu conforto e privilégios oferecem), é uma situação excepcional. Uma situação dolorosa, que altera planos, projetos, costumes. Uma situação invulgar que deixa tudo fora do lugar (embora, tal como n’ O Leopoardo, com alguns elementos estanques, como os efeitos devastadores da desigualdade social).

Quando eu percebi que não estava deixando as coisas com cara de normal, comum – veja bem, não é que a casa esteja arrumada ou bagunçada, ela só não está com a cara do “de sempre” – me perguntei por quê. Se, sei lá, estava mantendo tudo desse jeito para que me lembrasse de como está o “lá fora”, ou estava sentindo culpa e me punindo por poder me proteger e cuidar quando tantos não podem? Passou um bocado de coisa pela minha cabeça, inclusive que podia ser só preguiça, né. Acabei por achar que é sintoma, mesmo, na sua extensão de sentido, algo que manifesta outra coisa, que alerta, um sinal, um traço, um indício. Não é um para, é um por quê. O meu porquê.

Estamos em uma situação excepcional, invulgar, dolorosa, sim, sim, sim, mas, principalmente, preciso acreditar que é uma situação transitória. As sacolas no chão do escritório, as compras sobre a mesa e todos os outros elementos que evidenciam a quebra da rotina são sintoma dessa esperança (que às vezes sinto desaparecer e fico oca) de que isto que vivemos (ou que morremos) é provisório.

Leio bastante que “este é um momento de incerteza”. Não consigo entender assim. Não consigo vivê-lo assim. A vida, regularmente, é incerta. O imprevisto, o inusitado, o acaso, são sempre presentes quando a vida corre solta. Eu cresci ouvindo que a “única certeza é a morte”. Sinto que este não é um tempo de incerteza, de acaso, de inesperado, é um tempo de morte. Espero que seja um intervalo.

Porque sendo provisório o que vivemos agora – e apenas se – você nunca verá esta casa assim, como está agora que escrevo este post. Verá objetos insólitos sobre o aparador? Sim. Haverá coisas em cima da mesa da cozinha e espalhadas pelo chão do escritório? Provavelmente. Esbarrará em mim andando nua pela casa? Não há dúvida. Mas não será uma casa em suspenso, distante de si mesma, de mim, uma casa bunker.

Então eu desejo isso: que você veja minha casa como nós somos.  Parece simples, mas é imenso, você estará aqui, eu estarei aqui, a ameaça e o medo, não.

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3 comentários em “De perto, ninguém é

  1. Ler seu texto me.fez ler a mim mesma mas duas primeiras semanas. Eu não sabia mais o lugar de nada, nem mesmo o meu e quando tovava o telefone com notícias do outro mundo, onde tudo desmoronada, eu morria junto com cada um que não resistia e sabia que chegaria aqui e não saberia nada. Agora as notícias são horríveis e são aqui do lado, perto. Cinco pessoas no prédio estão doentes e eu queria me importar, mas não consigo. Uma delas estava na Paulista com bandeira enrolada no corpo. As outras eram contra o isolamento. E mesmo assim eu queria me importar. Queria, mas não me importo. Prefiro ficar aqui e olhar a algazarra dos pássaros pela janela

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  2. é um tempo com muita certeza, né. se fosse incerto, poderíamos pensar “será que amanhã poderei sair? quem sabe?”. o que mais tem nesse intervalo é previsão e cálculo do que vai acontecer em conseqüência de quais ações. 😦 seu texto me fez constatar isso. nesse sentido foi triste, mas te ler é bom que eu me sinto abraçada. bjs ❤

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