Deriva

Uma das músicas que eram “tão minhas” é a que diz “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”. Era tão minha, eu disse. Era. Atéia, nunca tive fé em muita coisa e agora vejo esgotar a esperança no que virá, na vida, no homem. Tem gente apostando que o número de mortes vai “abrir os olhos” das pessoas. Isso é tão violento, quase tão violento quanto quem fica no good vibes “vamos sair melhor dessa”. Pessoas estão morrendo, elas não vão ficar melhores depois dessa porque não tem depois pra elas, pelo menos não por aqui. Acho inaceitável cada uma das mortes. Cada uma delas. Eu lembro dos anos 90 e como eu acreditava em fazer um mundo melhor porque eu olhava pro lado e via pessoas que eram esse mundo que eu queria. Ainda continuo vendo esse mundo em pessoas que admiro mas vejo tantas pessoas outras. Uma filha enlutada, morando em outro país, posta sobre o sofrimento dela pelo pai que está com dois pulmões comprometidos e, por causa da sobrecarga do sistema de saúde, não é prioridade para o uso de um respirador, se e quando aparecer. Isso está o condenando à morte e uma morte com sofrimento. Aí aparece gente, gente mesmo, não robô, gente conhecida dela,  pra dizer que a) a culpa é do governo anterior que investiu em estádio ou não em respirador, b) que a culpa é dela que não pagou um plano de saúde pro pai, c) que tem gente morrendo de outras coisas todo tempo, não tem nada demais no covid, d) que é capaz de ele morrer de outra coisa e inventarem que é covid. Dizendo isso e coisas ainda piores que não tive condições de ler e/ou de reproduzir.

A sensação de impotência me consome. Eu vejo muita gente com dificuldade de lidar com a solidão física que a quarentena impõe e não poder ir ver o mar realmente me dói um tanto, mas o que é realmente doloroso é perceber-me isolada – ou quase – no que se refere à forma de ver o mundo, de interpretar a realidade, de sentir.

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Sabe uma coisa que eu odeio? Eu estou com medo da volta as aulas, medo de ir à universidade, de entrar em sala, de estar com colegas e alunos, medo do meu trabalho e (na medida em que é possível amar um trabalho) eu amo meu trabalho, é horrível demais nos colocarem nesta situação.

Aniversários me deixam contente. Conheço e amo pessoas incríveis, celebrar suas vidas costuma ser fácil e prazeroso. Entretanto nessa época tudo que eu quero escrever é “parabéns, desejo que você continue vivo” e suspeito que esta não é a mais conveniente das frases de feliz aniversário.

Desde que me lembro, ler e escrever tem me salvado.

 

 

 

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