Morfina

BEIJO AMERICANO CAIXA COM 15 MUDAS * - Tirol Plantas

 

Meu cabelo está com uma aparência estranha, mas muito macio.

Tem essa comidinha, quente, simples, razoavelmente barata, que aprendi com minha mãe e que fazia sempre pro meu filho. Linguiça com batata ao molho e arroz. Fiz um panelão imenso dessa comida-abraço.

Tenho que descer, ligar o carro, aguar as plantas, colocar o lixo pra fora, lavar roupa. E estou sem ânimo até pra vestir alguma coisa (a falta de ânimo pra colocar roupa, honestamente, não tem muita relação com o momento atual, sempre gostei de ficar pelada mesmo, o isolamento só facilitou).

Comprar um oxímetro? Um novo nebulizador?

Eu continuo dizendo que não gosto de podcast, mas já escuto três.

Ontem reli O Amante. Tinha esquecido como Marguerite Duras escreve o que preciso como preciso.

Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, uma pele sulcada. Não é caído como certos rostos de feições finas, os contornos se mantiveram, mas sua matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído

Olhei no espelho e percebi que nunca mais conseguiria não me ver como eu não me via, antes. A pandemia me deu um corpo e um rosto. Devastados.

Mais de 5000 mortos. Eu não tenho nenhuma condição de lidar com essa informação. Menos ainda pra ler os comentários de gente burra que se acha muito esperta comparando com o genocídio negro/indígena.

Quanto mais as receitas cada vez mais elaboradas na minha timeline mais aqui em casa a tendência é tapioca com ovo – até acabar a goma, pelo menos.

Tem essa amiga querida e ela me perguntou como eu estou. E quando ela perguntou, eu, que já não era ninguém, difusa, diluída nos dias que são apenas espera e angústia, me fiz alguém pra responder. É inesperado o que pode nos salvar de nós mesmos. Fina flor, um beijo.

Se não perdi as contas, quarenta e cinco dias. Posso dizer que estou tendo vários momentos Iago (bem incomum porque geralmente dou pouca atenção à vida alheia). Por exemplo, uma certa inveja de quem tem preocupações estéticas relacionadas ao fim da quarentena. Eu me preocupo apenas com a) quem estará vivo e b) se eu não for uma das pessoas vivas, que tenha sido sem muita dor.

Era apenas isso que eu devia escrever, mas disfarço entre variados parágrafos: eu queria morfina, faz favor.

Uma saudade do mar. E de guioza, não queria morrer sem voltar a comer guioza num balcão na Liberdade.

A vida, eu sei (e a morte, seu outro nome), não é sobre o que eu espero.

Queria escrever uma coisa bonita. Como um canteiro de marias-sem-vergonha. Um pudim recém-desenformado. Uma gaitada no começo da noite. Um lenço de seda colorido. Uma melodia do Gil. Pessoas de mãos dadas. Uma reprodução de um quadro de Renoir. Uma floração de ipês. O barulhinho do eléctrico 28. Uma foto sua, de manhã, antes de sair da cama. Uma memória antiga de um relacionamento que foi bom até já não ser. O desenho do mar quando se desfaz em renda, na areia; seu sussurro, a maresia, o gosto de sal na ponta da língua que toca a minha. Queria escrever uma coisa bonita, algo simples, evidente daquele jeito que espanta porque nos esquecemos do que apenas é, algo que afague, que alente, que faça companhia pra esse doer que se tornou a vida. Queria escrever: um abraço.

choque
Os moços do Choque de Cultura são uma das poucas coisas que me fazem bem, neste agora.

 

 

 

 

 

 

3 comentários em “Morfina

  1. Borboleta, não sei se vc chegou a ver um post em que recomendo o “festival de cinema varilux em casa” e, em particular, um filme: “O Mistério de Henri Pick”. ele pareceu pra mim a parte das coisas bonitas do seu texto. acho que vc vai amar, se não viu ainda.
    beijo bem gande.

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