Pra lá de mês

Eu não me sinto trouxa por estar completando 32 dias sem sair de casa pra nada, nadinha enquanto tem um monte de gente em festas, supermercados, praças, sei lá onde. Sinto-me triste e enfurecida porque sei que grande parte dessas pessoas adoecerão. Que algumas – espero que não muitas – morrerão. Que sobrecarregarão o sistema de saúde e farão adoecer, física e mentalmente, médicos, enfermeiras, auxiliares e tantos outros trabalhadores envolvidos no cuidado. Me sinto triste e enfurecida porque estão colocando em risco tantas outras que gostariam de se isolar mas, por prestarem serviços indispensáveis à sociedade, tornam-se vulneráveis, como garis, coveiros, caixas de supermercado e gente que trabalha na farmácia. Eu não me sinto trouxa de ficar em casa. Me sinto envergonhada, às vezes. Aliviada, muito aliviada. E zangada, sempre.

Hoje eu li que o sistema de saúde do Ceará já está saturado. Hoje o Mandetta (que nem era essas garapas toda) foi substituído por alguém que entende que saúde é mercadoria e cuidar da população é um custo. Internações e mortes em número crescente. Manaus e nosso completo fracasso. Raiva e tristeza, raiva e tristeza, raiva e tristeza.

Saiu uma portaria do MEC prorrogando por mais 30 dias a suspensão das atividades letivas, imagino que a “minha” Universidade vá seguir essa diretriz. Alívio.

Morrem. Morreu Moraes Moreira, morreu Sepúlveda, morreu Rubem, morreu Garcia-Roza. Garcia-Roza, além de um grande romancista, é minha referência bibliográfica de afeto quando lembro da luciana com seus dezesseis famintos anos, primeiro semestre do Curso de Psicologia. Já estou ficando repetitiva, meu mundo acabando, sei lá o que vou continuar fazendo por aqui?

Há pouco tempo escrevi que não sinto inveja da vida de ninguém. Não é bem verdade. Às vezes sinto inveja das vidas das lucianas que eu não fui. Mas quando vem este sentimento eu logo paro e penso: será que eu gostaria delas como eu gosto de mim?

Para não zerar o jogo da quarentena, fiz pão.

Acabou a laranja. Todas chora.

Minha rosa do deserto tá florando loucamente. Ela realmente não gosta de mim.

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3 comentários em “Pra lá de mês

  1. Sei lá, eu queria nada sentir, nem mesmo medo. Queria ser indiferente com toda essa gente e passar para a próxima fase, como se tudo fosse um jogo e eu lá na outra sala sem me importar com quem está em campo. Apenas eu o livro e a Carly Simon que insisti em cantar Sometimes I wish Often I wish That I never, never, never knew Some of those secrets of yours. Mas, de novo eu me sinto como na eleição do atual presidente. Encolhida do lado de dentro. Não sei bem o que sinto… já passei por várias fases. Raiva de quem entrega seu voto para qualquer tolo que se deite na forma de rótulos toscos. Dessa gente que procura por heróis em plena política e de pessoas que não entenderam nada. nada mesmo. Esquerda. Direita. Nada. Ah, sei lá… eu queria morar num texto de Jane Austen ou num verso de Emily Dickinson.

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