Apenas duas mãos

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo

Vigésimo-nono dia.

Eu sinto todas as perdas das pessoas. Pessoas que perderam a esperança. O emprego. A fé. Pessoas que perderam o vôo, a chance, o prazo. Pessoas que perderam a alma. A capacidade de refletir. O bom senso. O senso de autopreservação. Pessoas que perderam o rumo, o prumo, o discernimento. Pessoas que perderam o bico, a merenda escolar, a convivência. Pessoas que perderam a privacidade, a oportunidade, o sossego. Pessoas que perderam o descanso, a proteção, o chão. Pessoas que perderam espaço, poder de decisão, liberdade. Pessoas que perderam a saúde, o ar, a vida. Pessoas que perderam amigos, irmãos, pais, avós, vizinhos, professores, alunos, conhecidos, colegas, amantes, filhos. Pessoas que perderam pessoas. Pessoas que perderam alguém, talvez a si mesmos. Eu sinto tudo mas é impossível sentir como o outro sente o que ele sente então eu sinto sem saber, do meu jeito, de mau jeito, atabalhoadamente.

Quando se perde algo, quando se perde tanto, quando se perde alguém, é um tipo de fim do mundo. É isso, meu mundo tá se acabando.

Eu faço o que posso e posso muito pouco e me pergunto se faço tudo mesmo ou faço apenas o bastante pra sacudir a cabeça e me dar tapinhas condescendentes nas costas. Eu faço o que posso, mando mensagens, faço doações, oriento alunos, fico em casa. E em tudo que faço sinto que não sou o suficiente. Anos de análise me cutucam a dizer que ninguém é. Usualmente me estrutura, me organiza, me consola. Agora, só impede o desespero.

Não é apenas aqui, não é apenas – e isso é imenso e a angústia nem chega a dor conta. Em algum lugar alguém sofre, eu sempre soube, mas há nesse momento presente uma impressão de que. Pois é. Quase.

115 anos do nascimento de Lacan. Quando eu conheci a psicanálise, ele já. Ele já tinha rompido com várias regras que estagnavam o trabalho com o inconsciente, já havia ensinado que a mulher não existe, já havia puxado o tapete das identificações, já havia apresentado os quatro discursos que fazem laço. É de Flaubert a frase “madame bovary sou eu”, mas foi com Lacan que cheguei a um entendimento: o analista é seu estilo. O sujeito, também. Lacan convida a uma assinatura. A análise convoca uma ética. Foi Lacan quem me ensinou que o Eu é um Outro e que o outro são outros, grande e pequeno, objeto pequeno a, o outro do laço social e até o Outro gozo, diferença pura e radical. Assim, a alteridade não se apresenta apenas na outra pessoa, pessoa diversa de mim, diferente, mas como sujeito cindido que sou, a estranheza que habita em mim.

Ainda sobre o Lacan, contei para minha amiga Renata Lins que estava pesquisando uns artigos sobre psicanálise, escrevi na barra de busca: “signo”, “Lacan” e antes de escrever as outras palavras, dei enter sem querer (olha o ato falho) e aí o google me mostrou o mapa astral do Lacan. Ela respondeu: “sabe que nunca vi? vou olhar”. Eu disse: se der, me conta suas impressões e ela explicou o mapa dele, tá nesse link aqui e eu achei sensacional de tão pertinente.

Hoje morreu Moraes Moreira. Quando eu me conheci e à música, ele já. Ouvi dele o canto da alegria e o convite pro bloco do prazer, ele quem instigou a abrir a janela e não perder a barca. Li de alguém: doce e maluco. Rubro-negro, como não. É mais do meu mundo que acaba.

Moraes Moreira - LETRAS.MUS.BR

 

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

 

 

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