Dificuldadezinha

Eu acho que medo, medo grande eu tinha dois antes dessa pandemia. De um deles eu falo bastante: tenho medo de ficar cega. O outro não me acompanha desde sempre, quando eu tinha 18 anos e tirei a carteira de motorista, eu nem pensava nisso. Mas em pouco tempo me ocorreu: e se eu machucar alguém? Tenho pavor, pavor, pavor disso (psicanalistas podem fazer a festa com esse parágrafo, eu mesma fiz, no divã).

Eu sou uma motorista super conscienciosa. Monótona. Na estrada o limite é 80km por hora? Dirijo a 80 km por hora, não importa se é pista dupla, bem asfaltada, sem nenhum outro veículo e sem radar. Passo uma vida pra tirar o carro do estacionamento, vou devagar, olho várias vezes no retrovisor. Vai que alguma criança se solta da mão da mãe e passa atrás? Nunca ultrapasso sem ter muita certeza de que tudo é favorável. Ligo a sinaleira bem antes, mudo de faixa devagarzinho. Como eu disse, uma motorista que chega a irritar quem tá no banco do passageiro. Paciência, é um preço baixo a se pagar pela intenção de nunca, nunca, nunca causar dano a alguém.

Então o outro medo que eu tinha, além de ficar cega, foi potencializado com o corona vírus. Eu fico em casa, eu cuido da quarentena, eu evito contato com outras pessoas porque tenho muito, muito medo de ser vetor de contaminação. Tenho medo de ser responsável pela dor de alguém.

Meu cabelo tá meio estranho. Que bom, combina com o resto.

Dentro de mim mora um anjo, mas é amarrado no porão e raramente o alimento.

Essa música em mim. Sou tanto. Tantas eus. Tantas que foram, que sou. Quando tudo já for outro e também eu diversa, espero ainda estar assim. Aqui. Há mais versões no youtube, aquelas de disco, voz mais límpida, gravação melhor. Mas. Gosto imensamente desta versão que ela mais conta que canta e tem uma pequena gargalhada pertinho do fim. Uma vez uma amiga pescou num livro e me disse: somos nós que somos contados por nossas histórias e não elas por nós. Sigo acreditando. Essa música me canta, mais do que eu a ela (até porque sou desafinada e só canto que nem a menina com uma flor).A gente (a gente sou sempre eu) diz casa, mas, na verdade, é o peito

 

Eu hoje fiz tapioca. Peneira fina, goma branquinha, pitada de sal, frigideira quente, manteiga derretendo e um suspiro.

Status: se sentindo ousada.

Hoje teve trabalho por vídeo-conferência. Não recomendo.

Ainda o pôr do sol, a caixinha com as amigas, o filho fazendo surpresa boa, um livro, uma série, finalmente. Vida nas brechas.

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O corona vírus trouxe uma dificuldadezinha pra essa meta aí

 

 

2 comentários em “Dificuldadezinha

  1. Adorei voltar a te ler em um blogue. Senti falta disso. Tanto que voltava no Borboletas para ler os antigos. Eu tenho muitos medos. Mas no caso da pandemia, não sei. Não acho que seja medo e sim preocupação. No meu caso. Meu medo de pessoas vem da infância. Então manter distância e natural e ficar a casa e condição natural. Sinto falta das calçadas. De sair livre, sem me preocupar tanto. De apenas ir. No mais, sempre tive neuras com limpeza. Sou alérgica e sempre me incomodou a ideia de ser devorada viva por bactérias. Graças a minha professora de biologia. E saudável e necessário, disse ela. Nunca mais os banhos foram os mesmos. Bem, eu desisti de guiar há anos. Vendi carro e nem sei por onde anda a habilitação. Prefiro pedir um Uber e poder me distrair com a paisagem, cenário.

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