Quem está contando?

Quarentena, dia 19 ou 20 ou 21, afinal, quem está contando? Você está, sua ridícula. Praticamente a única coisa que você tem feito já que não passa da segunda página do livro novo, não consegue ver mais que dez minutos de filme, não começou ainda a série do Freud, não faxinou a casa toda, não descobriu a cura do câncer nem pintou um quadro icônico.

Os otimistas dizem que vem aí um novo mundo. Os pessimistas também. E, olha só, também eu. A diferença é que eles sabem descrever, otimistas e pessimistas, como este novo mundo será. Não tem dúvidas, ou tem pouquinhas. Eu só consigo dizer que será outro. Nenhuma palavra a mais.

Tenho evitado botecos virtuais com amigos. Sinto que não tenho nada a dizer aqui e, provavelmente, não terei nada a dizer em interações. Uma vida cada dia menos nítida, vou virando um borrão sem cores ou contornos.

A sensação de morte iminente, a tristeza pela perda de tantas vidas, a insegurança constante, o temor pelas pessoas que amo, o lamento pelo stress dos profissionais de saúde, tudo isso me machuca, me maltrata. Mas o que me quebra mesmo é esse governo de merda e o tanto de gente tosca que ainda se alinha a ele.

Teve aniversário no fim de semana. Aliás, dois. A sobrinha num dia e no outro o sobrinho-vizinho. Teve parabéns pelo celular, foto com bolo, mensagens carinhosas e muita saudade.

Levei o lixo pra fora, lavei a louça, troquei a roupa de cama, cortei as unhas.

Você está triste porque não pode sair? me perguntaram. Eu não soube como explicar. Eu não sinto falta do “lado de fora”. Ou ainda, até sinto, mas não é isso, realmente, que tinge melancolicamente as páginas e inibe qualquer texto. Eu não sinto falta da minha vida de antes. Eu sinto falta da vida de vocês.

Eu acho engraçado que usam “fui desafiado” naquelas correntes de FB e não “fui convidado”. Parece que se vai para um duelo e não que se vá viver uma situação lúdica.

Espero que rúcula faça bem pra saúde porque estou comendo no almoço, merenda e jantar.

Queria demais ser a pessoa que faz bolos. Tenho guardadas inúmeras receitas, bolo fofo, mole, simples, elaborado, com suco de laranja, com queijo, de batata doce… mas nunca encontro a coragem.

Se eu estiver aqui. Se você ainda estiver aí. Se as palavras forem laço ou convite. Se não fosse esse nosso imenso e difícil amor, não fosse esse abismo entre nós, eu te convidava a dançar não o último, como Bivar, mas um primeiro bolero.

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