Como quem dança

São 19:30hs do décimo nono dia da quarentena e olhando retrospectivamente devo dizer que estou contente com ele. Tá, talvez contente seja um termo muito forte, estou satisfeita. É a primeira vez, desde que isso tudo caiu na minha cabeça e pesou no meu coração, que eu acordei nem muito cedo nem muito tarde, tomei café com uma torrada, almocei e jantei comida de verdade (e nos horários “certos”), fiz uma doação para um projeto que está alimentando as pessoas em situação de rua, comi uma fruta de lanche, li um livro inteiro (de 480 págs) e já estou quase na metade de outro, paguei contas, escrevi e compartilhei a historinha do dia com as sobrinhas, arrumei a cozinha, comi creme de abacate, orientei trabalho por email, troquei mensagem com filhote.

dracula-deppified

A gente espera, como se fosse possível.
Se embeleza, põe até óculos azuis.
Como se fosse possível, eu dizia. Mas não é.

Eu gostaria de escrever como quem dança. Com leveza. Daquele jeito em que cada movimento tem um sentido, foi trabalhado, elaborado e agora é só beleza e graciosidade. Queria a escrita onde a suavidade incluísse a força, o que é como declinação inevitável do que foi e, de repente, uma parada, um respiro. A repetição se fazendo arte e suor. Queria que minhas palavras transpirassem. Que as palavras fizessem ponta, mas que nem se notasse o esforço, quase flutuassem, enlevo e corpo. Gostaria de escrever como quem executa o improvável. Ocupar espaços de formas inusitadas. Como se o texto fosse umbral e convite. Quando se dança é como se o corpo condensasse, em um tempo e espaço únicos e irrepetíveis, som, sonho e movimento. Escrever como quem rodopia. Como quem desenha transitórias figuras no ar. Que a letra fosse como o segundo ato de Giselle, a morte do cisne, a Valsa das Flores, como uma coreografia de Deborah Colker, um improviso de Baryshnikov, um dueto com Fred Astaire. Gostaria de escrever como quem desloca o ar, seja no palco, seja no peito.

 Sem me dar conta, perdi a conta dos dias que espero por dias melhores.

 

2 comentários em “Como quem dança

  1. Olha, que coisa. Há muito tempo não acessava seu blog, e há mais tempo ainda acompanho tuas escritas no “Borboletas nos Olhos.” Que bonito continuar te lendo. Há braços, em meio à essa pandemia…

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