Debutante

15 dias de quarentena, ela já é uma debutante.

Lavar as compras do supermercado, enfiar na água sanitária, borrifar, sei lá o quê, é exaustivo física e emocionalmente.

Conversando sobre o dia a dia, disse pra minha irmã: eu choro toda hora. Ela perguntou porquê. Eu não respondi senão ia chorar. De novo.

Não tinha lambrusco no supermercado online.

Verissimos empilhados na cama.

Xerazade engasgando.

Ganhei um presente maravilhoso da amiga. Em condições normais de temperatura e pressão eu já teria percorrido as 590 páginas. Hoje li dois parágrafos e chorei.

16o dia

Foi toda um infância e adolescência correndo pra farmácias (depois se tornou acessível e comprei meu próprio nebulizador). Era aterrorizante sentir falta de ar. Não há conforto em deitar, não se consegue ficar de pé. Tem que ser um sentado meio de lado e mesmo assim ajuda bem pouco. É doloroso respirar, é impossível não fazê-lo. Não é possível ler, ver tv, conversar, comer. Tudo custa muito esforço. Pode ter uma razão científica, mas eu achava apenas cruel que a hora em que a crise geralmente se acentuava era na madrugada. Se não bastasse a dor física, é tudo muito solitário. No começo eu ainda acordava meus pais ou minha irmã, mas depois de um tempo percebi a inutilidade disso. Então eu só sentava e chorava baixinho (não muito, chorar também piora a crise) e esperava passar, torcendo pra que aquela mão forte apertando meu peito soltasse só um pouquinho, que aquele peso nas costas se tornasse um tantinho mais leve, que não doesse tanto apenas estar ali e encarar a escuridão. Algumas vezes eu tomava longos banhos, inclinada, segurando na parede, a água massageando as costas, o tanto de tempo que aguentasse. Enquanto alguns assobiam Claudinho e Bochecha e seus futebol sem bola, piu-piu sem frajola, mais sofisticadamente cantam Samba em Prelúdio – sou chama sem luz, jardim sem luar, luar sem amor, amor sem se dar – ou são craques em combinações culinárias: presunto e melão, tomate e manjericão, queijo e goiabada,  meu enlace perfeito era Berotec & Atrovent.

E porque estou falando disso? Pelo óbvio mesmo, eu não tenho medo de morrer, mas é assustador pensar na dor. E mais – e principalmente – sofro com todas as mortes sem assistência.

A tentativa de dar sentido a tudo, que é meio próprio de ser humano, às vezes é bem cruel. A pandemia não é instrutiva ou pedagógica, pelamor. É devastadora. O que faremos desta vivência não é óbvio nem linear.

Em Las Vegas fizeram de um estacionamento, “abrigo” para os moradores de rua com marcas para o distanciamento social. Eu não paro de morrer.

Minha irmã teve uma ideia (não vou dizer genial porque seria redundante, as dela sempre são). Todos os dias nos encontramos às 16hs, numa chamada por vídeo, ela, as duas sobrinhas de 8 anos e eu. O objetivo é compartilhar histórias que nós mesmas escrevemos. O tema é determinado de um dia pro outro. É um momento de respiro, estou organizando o dia em função disto. A maior dificuldade, pra mim, é escrever um texto que prenda a atenção das sobrinhas só na leitura. Hoje li uma salada de Feitiço de Áquila, Bela adormecida, Shrek e Aladdin.

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