Chove

Varrer a cozinha.
Levar o lixo pra fora.
Ver um filme novo com cara de outros tempos.
Ver as atualizações de contágio, mortes e saber que é tudo subnotificado.
Chorar na cozinha. Na sala. No banheiro. Na cama, uma e outra e outra vez.
Colocar o feijão no fogo.
Reler um Verissimo.
Chorar na cama, no banheiro, na área de serviço.
Lavar lençóis, estender e ver seu trabalho arruinado por uma nuvem inoportuna.
Andar na esteira.
Chorar na esteira.
Tomar banho. Chorar no chuveiro.
Receber mensagens variadas no whatsapp. Me irritar com umas, sorrir com outras.
Acompanhar as fotos da bênção do papa.
Chorar com o papa, alquebrado, solitário, impotente naquela praça vazia num fim de dia chuvoso.
Sentir uma dorzinha fina n’alma, o tempo inteiro.
Trocar o ventilador.
Levar sopa pra irmã, trazer batatas #escambodofimdomundo
Receber mais áudios no zap, jurar que não vai ouvir. Ouvir. Chorar.
Assistir episódios da série que amava e só sentir tristeza por ela não ser mais.
Ouvir a chuva.
Ler notícias no twitter.
Beber água.
Suspender o projeto Xerazade.

Choveu em Roma. Choveu aqui. Significa o quê? Muito pouco, quase nada, mas molhou minha rede que estava na varanda. Hoje não teve pôr do sol.

Nem todo choro é tristeza. Tem a raiva também. Tem o medo. Mais raiva que medo, por agora. Tem a saudade. Tem a preocupação. Mais preocupação que saudade. Ainda. Tem aquele que é por alguma coisa tão linda que comove. Hoje não teve desse. Tem o chorar de rir. Faz tempo que não aparece. Nem todo choro é tristeza. Hoje, quase todo é.

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