Como se conta o tempo

Pode ter dedicatória em post?
Este é por, para, com a Renata Lins.

Dia 10.

Uma longa conversa com minha mãe. Uma curtinha com o filho.

Faz uns dias (umas duas semanas? vinte dias? como se conta o tempo quando ele passa tão diferente?) escrevi sobre o corona: se uma pessoa morrer já é morte demais.

Veremos o demais.

Eu não consigo nem imaginar como é duro perder uma pessoa querida e não poder sequer participar dos ritos que socialmente construímos para ajudar na elaboração do luto, como velórios e enterros. Não poder se despedir. Ter que viver esta dor em isolamento, sem abraços, sem o conforto do sofrimento compartilhado.

Um ringue de patinação feito de necrotério. Nós estamos vivendo o horror.

Para onde vão os beijos que não damos, os abraços que não trocamos, os gestos de carinhos interrompidos um momento antes das peles se tocarem. A tristeza imensa de pensar nas cabeças sem cafunés, os cangotes sem receber cheiros, as orelhas que não são mordiscadas. Os lábios vazios, as mãos vazias, o peito cheio de saudades.

Não é só a angústia da reclusão forçada. Não é só a incerteza, a ansiedade, a preocupação com os procedimentos e a saúde. Não é só doer pelos que estão em condição de reclusão mais inóspitas. Não é só a morte, tão próxima, a nossa, a de quem amamos, a de tantos, a de toda a gente. Não é só. É a porra de um governo de morte, todo dia, todo dia, todo dia.

A Renata Lins disse: “então, cuidado, atenção demais ao que se fala por estes tempos: ninguém sabe o que cada um está passando, está sofrendo. Não suponha que sabe porque conhece a cara da pessoa e conversa por aqui de vez em quando. O que a gente tá vivendo é muito grande, é muito grave. É coletivo e é também muito solitário“. Eu escrevo muito e todo dia e pode parecer triste ou melancólico ou trágico, mas digo a vocês: este é meu lado luz. Não há palavras pra dizer todo o resto.

Na sombra, tudo é dor e ameaça.

Eu sinto um bolo na garganta, um aperto no peito, uma pedra no estômago quando eu penso nos profissionais de saúde que não só foram (e aqui estão indo e irão) trabalhar em situação de risco – nos outros países – que não só trabalham incansavelmente lidando com recursos escassos como viram morrer uma pessoa depois da outra, apesar de todo esforço. A impotência deve corroer e doer demais. Eu penso nas pessoas que trabalham em funerárias e em crematórios. Penso na solidão dos que limpam as ruas, dos que atendem nos poucos balcões que devem continuar abertos. Penso nas pessoas da limpeza, da cozinha dos hospitais. Penso em tantas profissões que não sei quais são e em tantos trabalhadores que desconheço e que estão fazendo coisas que nem suspeito e fazendo a o carrossel girar. Não cabe em mim o que sinto por todos.

Estou vendo um filme atrás do outro, hoje. Por outro lado são 15hs e eu tomei duas garrafinhas de água e só.

No projeto Xerazade hoje eu disse peitos.

Roma. The view from the Spanish Steps.  Alessandro Penso for The New York Times

Roma é uma cidade construída sobre a ruína de uma cidade construída sobre a ruína de uma cidade construída sobre a ruína de uma cidade construída sobre a ruína… Suspeito que serei assim, ao fim de tudo, se aqui eu ainda estiver. Não a continuidade de quem eu era. Outra. Sobre a ruína de quem fui. Qualquer obra de metrô pode desenterrar memórias, ossos e incompreensão.

 

 

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