Sobre canções, pinturas, histórias, testamentos e um rosto caroçudo

Dia 06 do distanciamento/isolamento social.

Hoje eu: chorei. E fiz tapioca. Assisti um filme inspirador sobre uma pintora chamada Maudie. Peguei receita de empadão com a Renata. Mandei mensagens de amor. Inclusive um áudio. Lavei peças pequenas, à mão. Fiz esteira, pouco mais de meia hora. Tomei banhos, vários banhos. Me preocupei com dinheiro. Terminei mais uma novela policial. Coloquei Mariene de Castro pra cantar Falsa Baiana e dancei. Fiz cuscuz e fui além, fiz farofa de cuscuz com linguiça. Desejei uma cerveja gelada, mas queria junto o bar e os amigos, então melhor nem pensar nisso. Bebi água. Maycon contou que a Biscoito Fino tinha liberado o show da Bethânia e Zeca Pagodinho, assisti e mandei o link pro meu pai. Comprei livrinhos pra minhas sobrinhas. Lavei a louça e arrumei a pia da cozinha.  Dormi no fim de tarde. Acordei com sede, tomei água (tenho tomado muito mais água que sempre) e agora voltarei ao kindle. Mais tarde vou esquentar o resto da sopa de ontem.

Quando eu digo que essa situação está me devastando não é jeito de dizer. Além da rosácea que tá tornando meu rosto uma bola de fogo caroçuda, cólicas de revirar os olhos e agora duas obturações caíram.

Lá em casa (na casa e no tempo da minha infância) tinha um LP que entre outras tantas canções, tinha duas que falavam de cores e sedução. Eu cantarolava – e até hoje sei – grande parte das duas. Achava bem fofo quando ouvia: “um sapatinho eu vou, com laço cor de rosa enfeitar, e perto dele eu vou, andar devagarinho e o broto conquistar“. Mas a cor e a canção que eram e permaneceram as minhas: “meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear, botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar“. Daí pra frente, cabelo desarranjado e uma certa displicência na vida. Além de, claro, ter muitos garotos e considerar bem normal. Daí eu cresci e passei a andar com um bocado de feminista maravilhosa mas sempre fui mais relaxada com os produtos culturais e os papéis de gênero porque, suspeito, tem muita coisa poderosa na mediação. Ah, minha música preferida no LP era Filme Triste e eu na vida fui muito mais broto e melhor amiga que mocinha que ia ao cinema.

Eu nunca tive medo de morrer. Uma certa pena, se for cedo, mas medo, não tenho. Desde antes dos catorze anos que fiz testamento. Sério, meu violão fica pra Fulano, meus livros pra Sicrana. Entretanto sempre tive – e tenho – medo de ficar cega. E, junto, pela experiência de ser asmática – medo, pavor, da dor do ar faltando. Qual o efeito do corona? É ironia isso aí, vida? (quanto ao testamento, não preciso mais, tenho filho, fica tudo, coisas, saudade, futuro, memória, tudo é dele).

Eu não sou muito dessas que se comove com histórias de superação por causa da superação (mas sim, às vezes acontece de me comover porque é uma história e gente me comove). Hoje eu conheci a Maudie Lewis e gostei muito de sabê-la. Gostei das pinturas, das cores e gostei da inveja que ela me fez sentir por saber ver a beleza no mundo, por saber reconhecer o amor que lhe dedicavam do jeito que podiam senti-lo e manifestá-lo, por saber ser generosa em retratar as miudezas que via de um jeito imenso. Tive inveja do cantinho que soube fazer pra ela e, nele, ser.

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