Italiana, francesa, cápsula, elétrica, hay cafeteiras de muitos tipos aqui em casa. Eu prefiro o café coado. A panela na primeira boca do fogão, água fervendo, uma colher bem cheia de café, paninho, as mãos abraçando a xícara quente, o cheiro forte que invade o nariz enquanto alongo o primeiro gole até ficar meio tonta. A solidão é quente, forte e um tantinho amarga.

Pensei que ia acordar com mil análises sobre, manchetes onipresentes, boletins médicos, reportagens várias. O que encontro? uma ou outra piada com retroescavadeira. Eu realmente fiquei obsoleta. Me resta o mar, livros velhos, uma taça de vinho, uma cadeira na varanda e a espera. Minha alma gêmea atual é o Pedro Pedreiro.

Tenho sempre a impressão de quem fala alto ao celular ou escuta áudios no viva-voz, comunica-se não só com a pessoa do outro lado da linha mas busca minimizar a solidão do existir falando também com todos os desconhecidos eventualmente próximos no momento.

A cumplicidade se alicerça em sussurros. O instante de silêncio oriundo da intimidade é o verdadeiro – e fugaz – momento de aniquilação da solidão.

Li por aí que solidão não tem tamanho, tem peso. Há quem o carregue nos ombros. Eu uso pra calçar a porta.

Ninguém gosta do que a gente gosta do jeito que a gente gosta. Às vezes é mais solitário encontrar alguém que gosta do que a gente gosta do que quem não gosta. No segundo caso não há expectativa, no primeiro tem aquela dorzinha do quase e, aí, a desilusão.

Tem aqueles textos, aqueles blogs que me doem porque eu a) queria ter escrito os textos, b) queria ter inspirado os textos. De um jeito ou de outro, gostaria que o autor dormisse em mim.

Quando morrem pais, tios, velhos conhecidos, tudo isso é meio aterrorizador e muito, muito doloroso. Um tanto – e principalmente – porque a nossa própria finitude vem à bail mas, suspeito, também porque se vai, junto com aqueles, uma parte da nossa vida, porque ao não termos mais com quem partilhar alguma lembrança, é como se aquele momento entrasse em uma zona cinza, “uma árvore caiu na floresta, ninguém viu, essa árvore caiu?”. Se já não há ninguém que nos viu caindo da árvore, aprendendo a andar de bicicleta, chupando picolé com um sorriso banguela, chorando pelo primeiro coração partido, comemorando o primeiro salário, emocionada na saída do cinema, é meio com se a queda dessas árvores fosse imprecisa. É solitário envelhecer não porque não tenhamos um tanto de gente querida ao nosso redor, mas porque essas gentes conhecem uma eu que sou, mas que mal ouviram falar daquela criança que me enternece, daquela adolescente metida que me espanta, daquela jovem estabanada no viver que recordo.

Sentávamos um ao lado do outro, música a tocar, mãos dadas, e éramos solidão. Partias e não demorava eu já estava acompanhada da tua ausência doendo em mim.

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A solidão d(est)a mulher gorda tem menos relação com a presença/ausência de parceiro pro vuco-vuco e mais com a impossibilidade de manter conversas que não envolvam o tema dieta/aparência/emagrecimento.

E tem aquele bar, aquele, na esquininha do mundo, porta de vai e vem, o ar parado parece uma névoa empoeirada, piso linóleo arranhado, copos manchados mas limpos, fotos de músicos – quase todos de blues – nas paredes, a cerveja gelada de quase esquecida no refrigerador. De cliente, uma mulher de maquiagem pesada e ar distraído com um drinque longo esquentando enquanto o olho vagueia interiores, o moço de costas curvadas e uísque sem gelo, dois velhos jogando damas tão abstraídos que se suspeita que desaprenderam a falar já há uma dezena de partidas, dois ou três passantes que entram pra perguntar qualquer coisa, tomar um café frio ou levar duas garrafinhas de água. O garçom traz a bebida e senta à mesa, não oferecendo qualquer tipo de abertura ou sinalizando interesse em conversa, apenas pra diminuir o número de viagens que fará entre você e o freezer. Goles longos, sem sede e sem pressa, já se sabe que peito é ralo aberto, não é possível afogar uma solidão.

Então nos despedimos e, imediatamente, nossa história tornou-se um pretérito mais que perfeito. Talvez porque já não houvesse o amor de um pelo outro mas instalava-se a impressão de que jamais se acabaria o amor por este amor – que já se tornara saudade.

Solidão é abrir a geladeira e decidir que não tem nada pra comer. O que a gente não diz: não tem nada que se deseje.

 

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