Your girl is lovely, Hubbell

Eu queria estar aí. Ou que você estivesse aqui. Nem isso, queria que estivéssemos no mesmo abraço. Queria te dizer delicadezas, muitas e tantas até horizontes se colorirem no teu olhar. Ou nem, queria que meu silêncio fosse bálsamo. Queria te garantir futuros de riso e prazer e segurança e conforto, queria te prometer jardins e praias e navios com espaçosos convés e drinks com guarda-chuvas coloridas, imensos chapéus, canecas para café, quadros de molduras brilhantes, batons de intenso vermelho, bolsinhas coloridas, uma cadeira de balanço, moedas enterradas, fonte de água pura. Queria te colocar pra dormir e velar teu sono e apertar tua mão delicadamente quando fossem pesadelos e tirar suavemente o cabelo da sua testa esperando que o intervalo entre a entrega e o acordar leve a sombra nos seus olhos, seus medos, remorsos, a dor. Principalmente a dor. Queria que a dor fosse embora, deixando só aquela sabedoria nostálgica de já ter sido outra. Queria que ficasse o molejo de amor machucado, para sermos, juntas, da turma do Vinícius, mas o corte limpo e cicatrizado. Queria te dizer que não sei o que você sente mas sei o que já senti e estou aqui. Estamos. Permanecemos. Não inteiras – ninguém, nunca – mas cantarolando A Estrada e o Violeiro.

Queria dizer, principalmente, que não há pressa. Há o riso e há o pranto e é tudo ao mesmo tempo agora. Não há o certo. Não há um jeito. Há você. Já é difícil demais estar, ser, viver, pra gente ter que pensar se está passando por isso da forma adequada.

Às vezes, tantas vezes, muitas vezes, a “girl” dou outro nem é pessoa, é miragem, ideal, modelo, expectativa. Um imperativo. Tipo a vida devia ser assim. Importa pouco, na verdade, gente ou quimera, importa mais que em algum momento, com sorte, sejamos capazes de acariciar – mesmo metaforicamente – Hubbley e consolá-lo, como a nós mesmos: ela é adorável, vai na paz, se puder.

MiserlyEasyBull-size_restricted

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
(Bukowski )

Faz um tempo que escrevi, mas quis vir pra cá, eu trouxe: Toda uma vida construída sobre saber ficar, saber partir. Mais: reconhecer a hora de partir, aproveitar o tempo de ficar. É mantra, serve pra tudo. Pra tanto. E pra quando. Também. Como agora, que o pé já sabe o frio de deixar tua meia, mas precisa caminhar. Como agora, quando o abraço ainda é quente, o riso ainda é fácil, o corpo ainda anseia. Ainda e, ainda assim, menos, sombra, resquício. Porque, eu sei ou adivinho, há festas tão intensas que mesmo depois do fim seu eco ainda é prazer e confunde os sentidos. É tentador ficar só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho como nas florestas de fadas em Avalon, enquanto a fruta apodrece, o cavalo vira carcaça, a teia cresce nas quinas e o pó entope arestas. Decidir levar a mala da saudade carregada de sim. Agarrar a vida com as mãos nuas e sentir suas afiadas arestas. Ninguém disse que era fácil. Mas eu digo que é possível. Ou torço para que seja.

 

2 comentários em “Your girl is lovely, Hubbell

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