Orfeu, a mulher de Lot, eu

Quando eu fico bem insatisfeita, angustiada ou infeliz com a minha vida eu paro e penso: quais das vidas que conheço (não vale por foto de revista ou notícia de jornal) eu queria pra mim? Nenhuma, né. Daí, bola pra frente.

Aprendi que é melhor gritar logo quando não gosto de um texto. Depois que os amigos declaram que gostaram fica, por vezes, constrangedor, explicar os meus motivos.

Tenho visto muitos filmes. Tem sido meu reforço de oxigênio. Não sou de planos e metas mas se, no fim do ano, eu tiver visto – em média – um filme ou mais por dia, ficarei feliz.

Estou precisando muito, muito mesmo, de um ano sabático.

Não sei como tem sido a rotina de quem trabalha em sala de aula. Eu sei que fui uma professora pior em 2019. Ando com o horror atravessado na garganta, daí fica difícil falar.

Eu sinto imensas saudades de tudo que a gente ia ser.

Eu não tenho lido nada – e isso me entristece demais (tenho relido bastante, mas não é a mesma coisa).

Eu, hoje, entendo não só Orfeu como também a mulher de Lot. Não é o passado que nosso olhar procura, mas uma confirmação de que podemos ver o que ansiamos. Spoiler: não podemos.

Tenho que comprar um novo álbum de retratos, um dos antigos está se desfazendo em pó, na estante. Vida, ah, minha vida, por quê metáfóras tão ruins?

Pequenas coisas. Bonitinhas. Inúteis. Fundamentais. Um brinco sem par no fundo da gaveta. O passarinho beliscando o nada no jardim. Aquela fita K7 gravada para um dia dos namorados. Uma bailarina bibelô. Telegrama com declaração de bem querer. Uma borboleta na varanda. A flor de cactus. O raio de sol brincando de ser cor na água da piscina. Um vídeo da Comaneci. Um verso escrito em guardanapo. Bolinha de árvore de natal esquecida na estante. Esperança e saudades.

A sorte, o aumento, alguma coisa mais linda que o mundo, a festa, o carnaval, a morte. Nesta ordem? Com alguma sorte, a alegria de poder, vez em quando, esperar um trem.

Tenho que organizar as categorias neste blog, que coisa mais confusa.

Eu gosto muito das vidas que eu poderia ter tido. Não faz diferença que eu tenha escolhido não vivê-las. Talvez seja justamente por isso que gosto tanto delas.

Tem nada não, tenho uma reserva pra Canoa no recesso entre os semestres.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s