Correndo pro Oscar 2020: impressões aleatórias e meio sem fôlego de uma apaixonada pela breguice da premiação 1

Ônibus na estrada, veio-me essa ternura. Eu durmo fácil em qualquer viagem. Porém, em toda parada, em qualquer parada, acordo. O ônibus diminui a velocidade e eu já me arrumo na cadeira, alerta. Mas na poltrona atrás da minha, uma moça que não acordou quando o ônibus parou, a não ser na rodoviária final do trajeto. O ônibus parava aqui e ali e ela continuava dormindo. Durante toda a parada, pessoas subindo e descendo no ônibus, luzes acesas e ela dormia. Fiquei fascinada. Dormir é estar entregue. Despida de toda tentativa de ser quem se quer ser. Despida, apenas – se isso pode ser um apenas. Quando eu namorava a lua (rá, quem tem um currículo assim?), um dos mais constantes rituais de amor era dormir em seu colo. Mãos juntas, conversa ritmada e o peito feito travesseiro, eu dormia. Passou o tempo, mudaram os colos, as conversas, as mãos que eram dadas, mas a entrega estava ali. Até aquele. Até aquilo. Até não mais. Cheguei a você de olhos abertos. Desperta. Eu, que tenho orgulho de me jogar em abismos, inquietava-me de já não saber dormir a não ser sozinha. Eu queria, sabe, só não conseguia mais. Não ter medo. Esperar o bom. Saber o riso. Mas não. De olhos bem abertos, se fosse possível fazer piada ruim com filme nem tão bom. Queria exatamente assim: poder ser vista, mais do que ver ou mostrar. Mas não. Não mais. Achei que tinha perdido essa capacidade. Achei que tinha me perdido ao perder a possibilidade de não ser. Aí, a gente. E no seu abraço fui balançando. Um bem querer que nina. Dormir, no seu braço, no seu olho, no tempo incerto, cafuné, chamego. Eu ainda posso. Olhos fechados, coração aberto. Se tudo mais não fosse beleza e gozo, moço, seria, ainda, gratidão, porque você me devolveu esse sono que é entrega.

Oscar 2020: Judy

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Tem uma crônica (do Verissimo?) em que o autor conta que quando não tem assunto pra o texto pro jornal, ele fala do ato de escrever. É uma muleta, se encaixa em qualquer data, parece pertinente, etc.

Às vezes se fazem filmes sobre outros filmes, sobre gente que fez filmes, sobre a indústria dos filmes, etc. Suspeito que, algumas vezes, é meio como a crônica citada. É levar na banguela. Uma parte não irrelevante desta produção é apenas auto-laudatória e além daquela satisfação narcísica de gostar do que se gosta, pouco mais representa. Não é o caso de Judy.

Judy é um filme sobre uma pessoa muito dolorida. Ser uma pessoa do – e no – show business não é irrelevante, mas não é o que sobressai. O filme me pareceu sobre vazios e como a inadequação maltrata. Ser grande demais e, ao mesmo tempo, insuficiente.

Renné faz um trabalho tão, tão incrível, passei o filme todo com vontade de abraçá-la e dizer coisas bonitas e reconfortantes. Todos os prêmios que ganhar serão merecidos. Sua interpretação nos fala de urgência emocional e vulnerabilidade. Conta-nos que a capacidade de se fazer amada nem sempre é satisfatória como parece numa perspectiva superficial. É vibrante, é amargurado, é agridoce. É, principalmente, verdadeiro.

Tal como Coringa, este é um filme em que quem o protagoniza tem grande responsabilidade pelo impacto que nos causa. A diferença, penso eu, é a qualidade do roteiro, inteligente, articulado, que constrói um fio condutor sem explicar demais, sem justificativas, sem respostas.

Não é um filme de amor, não é um filme de vilões, é um filme do doer que é ser quem se é. Que doa tanto se fazer quem é, mas que, também, haja tanta beleza e algum alento nisso, fez muito sentido pra mim.

O lugar além do arco-íris não existe. Minto: ele fica ali, no silêncio entre um grave e um agudo de Judy Garland. Cinema, eu te amo, mesmo que você faça tempestade em meu peito.

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