The Irishman – de uma sentada

“ouvi dizer que você pinta casas”

The Irishman é um grande filme. Parece piadinha já que tem quase três horas e meia, mas não é a isso que me refiro. É um filme que, apesar de ser lançado em uma plataforma de streaming, foi feito com grande reverência à essência do que é cinematográfico. É uma história que se conta, mas isso é feito de tal forma que se pensa que essa história só poderia ser contada feito filme, tinha que ser um filme, não uma peça, não um livro, não uma fotografia, um filme. Scorsese constrói uma elegia a um jeito de fazer filmes e a uma forma de assisti-los. Não é melhor nem pior, parece nos dizer, mas é. Para além disso, The Irishman é uma declaração terna e algo melancólica a certos personagens e aos atores que os tornaram imensos.

As palavras que me vinham enquanto eu via o filme, além da já referida melancolia, eram finitude, fortuidade, efemeridade, transitoriedade. Na narrativa vemos o auge de um período  – como bem definiu uma amiga no twitter : Camelot – mas nas frestas deste ápice já se vislumbra a falência, a decrepitude, o termo. Uma coisa que colabora com esta sensação – e achei incrível – é que apesar de uma significativa passagem de tempo, são os mesmos atores, não envelhecidos com maquiagem ou tecnologia (como é o comum) mas rejuvenescidos. Eles parecem jovens, mas se movimentam, falam, gesticulam como idosos, então é como se eles já tivessem, mesmo na época áurea, a semente da decadência. Outra coisa que trabalha nesta mesma toada é a luz em grande parte do filme que dá, aos personagens, um jeito de embalsamados.

O Irlandês mostra um Scorsese melancólico e reflexivo (Crítica)

Eu gostei demais do recurso de ir anunciando a finitude dos personagens, em um rompante, em um momento completamente desconectado do que seria a morte ela mesma, quando eles estavam rindo, bebendo, conversando, tramando. A morte violenta, o câncer, a idade, não importa, tudo deixa mais frívolo e mais precioso cada momento vivido. Gosto ainda mais que a morte de Hoffa não é anunciada – embora nós a esperemos, conhecedores da história – e mesmo quando acontece é como se não fosse. Ele só morre, ou desaparece, como um trocadilho que Scorsese faz com a narrativa “real”, quando é esquecido: a enfermeira, jovem, desconhece não só seu rosto mas seu nome e sua reputação.

Hoffa, que desempenho sensacional do Al Pacino. Pacino tem este talento de nos comprometer com o personagem a que ele dá corpo e Hoffa é um destes papéis que parecem sob medida. Cheio de maneirismos, gestos grandiloquentes, cordial (no sentido que nos define como brasileiros e tão mal entendido), é também o personagem que faz silêncios inesperados. Aquela cena em que ele entende, enfim, que é uma ameaça que lhe está sendo feita, tudo passa em seu rosto: surpresa, inquietação, medo e depois o descrédito.

Mas nenhum silêncio de Pacino faz frente ao pesado silêncio que De Niro performa na última hora do filme. O que é brilhante, já que ele é o narrador, cada vez mais sozinho na contação da história, encarregado de nos informar do que foi, quem foi, pra onde foi, quando foi e como foi e com talento nos impulsiona e sentimos e compartilhamos o que ele não pode, não sabe ou não quer dizer. E o que ele nunca disse retorna como nada, não há, de volta, o que os outros queiram lhe falar. Ao redor dele, o vazio. Outros grandes momentos decorrem da interação De Niro e Joe Pesci que, sem precisar de muito mais que alguns olhares e um tom de voz comedido, representa todo poder, ameaça e influência da máfia. Perigoso, parece gritar a cara de sono de Pesci que, apesar de todas as tentativas, jamais consegue cativar a menina Peggy.

É engraçado que seja um filme sobre amizade e lealdade quando, bom, acontece o que se sabe. Mas é. Um filme sobre escolhas, mesmo quando aparentemente já não se pode voltar atrás no caminho trilhado. Um filme sobre consequências, não em um sentido moralista ou dogmático, mas evocador da responsabilidade e autonomia. Um filme sobre vulnerabilidade, apesar da insistência no pego-mato-esfolo como caminho único para a afirmação de si. Pesci, De Niro, Al Pacino, só eles e seus personagens já valeriam o filme. Que é muito maior que eles, apesar disso. É um trabalho preciso de figurino, de trilha, de edição, de direção, voltando ao que eu disse lá no começo do texto, uma certa reverência ao fim de uma Era. Logo que vi o filme comentei que me lembrava, em alguns aspectos, o Método Kominsky – e sustento – tem a acidez, a relação humorada com o declínio, a falta de glamour da velhice. Mas agora, depois de uma segunda investida, penso também nos meus faroestes de estima: O Homem que Matou o Facínora e O Último Pistoleiro. A morte vem, não importa quão grande e aterrorizante alguém foi, e a quem tem tempo de saber e sentir que ela se avizinha, é cobrada uma posição. Os personagens de James Stewart e John Wayne, cada um a seu modo, percebem-se anacrônicos. Frank Sheeran também e, diante do medo que sente, monta pequenas barreiras: uma morte que não seja “tão” definitiva é o que ele anseia, mesmo depois de se defrontar, vezes e vezes, com a explicitação do insignificante controle que se tem não só da morte, mas também da vida, que é outro nome para dizê-la, só que soletrando devagar.

Não há pompa em The Irishman, mas isso não o preserva de ser visto com reverência. Parece um filme de gângster, soa como filme de gângster, vendem como filme de gângster… mas The Irishman é um filme sobre como viver é vão (com ambiguidade).

Os PSs maravilhosos: eu sou pintor de paredes/o sangue espirrando; a cena da porta entreaberta de Frank ecoando, de forma antagônica quase, a porta entreaberta de O Poderso Chefão, o deboche de Pacino: todos se chamam Tony,  a pergunta inquieta: há uma diferença real entre obedecer ordens e matar na guerra e obedecer e matar pela máfia?

2 comentários em “The Irishman – de uma sentada

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