Se acaso me quiseres

Não tem nada funcionando por aqui.

Eu diria que é preguiça, não fosse a tristeza.

Salompas é coisa linda de deus.

Aquela vontade constante de fechar os olhos e dormir até 2024, no mínimo.

“Nada do que é humano me é estranho”, uso muito pra acolher os moços.

Eu digo sim. Para todas os caminhos que não vamos percorrer juntos, para as camas que não partilharemos, para as memórias que não teremos, para as promessas que não faremos.

Lembro Kundera e aquele lance de que é uma angústia que a vida não tenha ensaio nem esboço. Eu gostaria de ter vivido, também, aquela vida que seria nossa.

A imagem pode conter: texto
é só pedir com jeitinho

Se ele soubesse como dizer. Como chegar. Ela passa e ele suspira, copo de plástico cheio de café, a manhã crescendo, um dia todo pela frente e a vontade de ficar por ali, seguindo em memória o passo balançado dela, que já dobrou a esquina em direção ao porto. Ele, no rumo oposto, o trabalho duro esperando, sabe, sem ver, o que vai ser do dia dela. Os olhos no mar. A espera. A saudade. Ela anseia e nele dói.

Se ele soubesse como dizer. Olha, olha pra mim. Olha como eu te olho. Olha, olha o meu sorriso bobo todo oferecido pra você. Olha a vida toda possível nos dentes alinhados, nos lábios estendidos, na alegria latente. Ele empilha caixas, transporta sacos, seus braços retesados de peso e abraços estocados. O ar seco dificulta o ritmo da respiração mas o peito se estende, imenso, aberto. Travesseiro disponível. Enquanto sua, ele a imagina. O vento marítimo lacrimejando os olhos femininos. Salgado, seu rosto, de mar e saudades. Ela oscila, sem porto e sem peito de apoio. Ele adivinha, lá longe, e sofre junto.

Se ele soubesse como dizer. Vem, moça, você cabe aqui. Vem, me escuta. Olha, descansa enquanto eu conto histórias, construo castelos sustentados em palavras, sonho aventuras, venço batalhas. Escuta os vales, as estradas, territórios outros, outro mar não navegado, um mundo meu que digo a você. Pausa pra almoço e ele sente a fome dela. O vazio. Ela e a inquietação. Vive em espreita. Volta já, ela tenta se consolar. Porque ele disse que voltava. Prometeu. Pro-me-teu, ela fala devagar, a voz doce, ele lembra, com um chorar surdo ao fundo. Quando? Qualquer um poderia perguntar, ele não pergunta, ninguém pergunta, com medo de quebrar aquela frágil espinha que se mantém reta na beira do cais. Em tardes de vento, sua saia abana como bandeira e ela deixa os olhos no mar, faróis, como se pudesse, com eles guiar os barcos e jangadas e navios e canoas e tudo que navega de volta à terra. Sereia ao avesso, seu silêncio é tentativa de resgate.

Findo o ofício, ele volta pra esquina de sempre, o mormaço do fim do dia dilatando as narinas enquanto espera o passo cadenciado que vem, na contramão da brisa, do mar pra terra, da saudade pra possibilidade, da incerteza pro abraço, da onda balouçante pra terra firme, quem sabe hoje ele tem coragem e descobre como dizer: morena, olha pra cá, olha pra mim, aporta, sossega, esquece, vem ver o sorriso, vem ser meu sorriso. Ela passa, desce a noite e ele suspira. Amanhã cedo, esquina, café quente e um novo quem sabe.

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s