This is Us ou A memória é uma ilha de edição

Eu não ligo pra spoiler. Não me importo nadinha quando passam imagens que ainda não vi de algum filme ou série, não ligo quando alguém comenta que evento A ou B vai rolar. Não consigo lembrar de nenhum livro, filme ou série que eu tenha gostado que tenha sido prejudicado pelo fato de eu saber algum “o quê”. Entretanto This Is Us colocou em xeque, duas vezes, essa minha indiferença. Há, nesta série, duas únicas situações que eu suspeito que sim, que se eu tivesse assistido sabendo quem eram aqueles personagens, teria sido menos emocionante. Duas situações em 3 longas temporadas, nem sei se chega a ser suficiente pra configurar como exceção.

O fato é que (se você não viu o primeiro episódio da primeira temporada de This is Us – e pretende ver a série – sugiro não ler este parágrafo) o uso das linhas temporais distintas e descobrir que aquele amontoado de histórias se entrelaçava foi muito instigante. E isso dependia apenas disso: saber quem eles eram. O uso intencional deste mesmo recurso no primeiro episódio da quarta temporada foi ainda mais tocante.

Mas nem era disso que eu ia falar. This Is Us é uma série brilhante sobre miudezas. Sobre cotidiano, pequenas alegrias, perdas, trabalho, cólicas menstruais, afeto, mudar de cidade, empacotar e desempacotar itens pra mudança, encontrar parentes que nem se sabia que tinha, parir, adotar, cozinhar, ir a uma reunião de AA. É uma série sobre viver. E sobre as decisões, inúmeras e constantes decisões que tomamos e que nos tomam e nos dirigem a seguir. Ficar ou não em uma festa, cursar ou não uma disciplina, dar bola ou não pra um rapaz bonito e como isso é ao mesmo tempo insignificante e completamente transformador.

Tomamos estas miúdas e significativas decisões baseadas em um balaio de coisas, nossos valores, o momento que vivemos, nossas esperanças, medos, informações que dispomos e, também, nossa memória. Quem e como nos fizemos a pessoa que somos. Em This is us somos levados a nos envolver com uma família pelo que vamos descobrindo do que eles viveram. Aí vem um maravilhoso episódio na terceira temporada e dá aquela sacudida: a memória é seletiva, ela lembra de uma guerra de lantejoulas, ele lembra do pai, frustrado e zangado, jogando um prato no chão. Mesmo dia, mesma família. O que é mentira, o que é verdade? Importa pouco, importa como o que “escolhemos” lembrar (e essa escolha, como bem enfatiza o Randall, também é resultado dos afetos envolvidos e de como um tipo de sensação, boa ou ruim, é forte o bastante pra suplantar a outra) vai sustentando novas decisões que forjarão outras lembranças que levarão a outras decisões.

Estava conversando com a Ju Fina Flor e lembrei da situação entre Randall e Beth e como, em determinada discussão, ela começa a listar uma série de situações no casamento em que ela foi se adaptando ao que era melhor pro Randall.  E eu totalmente do lado dela, como numa claque eu gritava mentalmente: “separa! separa!”. Mas depois eu pensei: o que nós lembramos vai depender, também, não só do afeto do momento em que vivemos aquelas situações mas do afeto atual quando recontamos a história. Se hoje ela se sente pressionada a se adequar e se ressente de se sentir assim, o afeto vai colocar holofote em outras situações em que, se ela não sentiu assim, poderia. Mas, eis a minha questão, se no decorrer do relacionamento ela não viveu aquilo como adequação, perda de sonhos, whatever, é pertinente que se cobre que as pessoas que viviam aquilo com ela tivessem reconhecido e reagido de forma diferente? E, além, sendo a memória esta ilha de edição, não é possível pensar que, neste momento da briga, é perfeitamente plausível que se edite pra lembrar o que se lembra de acordo com o desejo presente?

This_Is_Us_NBC

This is us é como a prateleira de vídeos feitos em casa, sem etiquetas e nas caixas erradas. Em cada episódio é como se sentássemos, puxássemos uma fita aleatória e nos encontrássemos com histórias incompletas, que dependem, em grande parte, do ângulo e das decisões de quem estava filmando, como se estivéssemos acompanhando uma conversa entre três pessoas, uma delas sai, a câmera acompanha aquela e ficamos pensando o que as outras duas continuaram dizendo ou quando estamos filmando uma criança fazer alguma coisa fofa aí ela cai e soltamos a câmera e nada depois daquilo fica gravado. This is Us deixa uma porção de frestas. Questões em aberto. Como foi mesmo? O que vai ser? Será que? Mas a vida não apresenta respostas lineares e a série também não. Cada fita caseira traz a história que narra mas traz, também, as emoções ligadas àqueles momentos, lembranças afins que não foram gravadas, brechas materiais para sabermos não só o que foi dito ou feito, mas como. Porque nos lembramos disso e não daquilo? Gosto que na série tem muita coisa aleatória e sem sentido – como na vida. E, tal como na vida, a gente busca dar um significado a estas coisas, porque é impossível simplesmente lidar com o é da coisa. Mas o sentido que encontramos, que tecemos, é sempre cobertor curto e não é único, depende da forma que cada um encontra pra lidar com o viver.

Daí reli o texto e o que achei que era um prefácio descontextualizado está inequivocamente relacionado ao que gosto tanto em This is us: a série é um spoiler ambulante. O presente nos conta infinitas coisas da linha temporal do passado. De repente uma conversa aleatória do presente nos conta que alguém morreu, casou, teve filho, se mudou, brigou, sei lá o quê e bola pra frente. Momentos “criticos”, reviravoltas, plots twits e tudo que poderia ser UAU simplesmente surgem num papo. Em This is us não é o que aconteceu que importa, mas o como, o caminho, a jornada de cada um, os afetos que se vincularam ao evento, como se lembram, como reagem, como seguem.

This is Us é um dramalhão feito pra gente chorar e empilhar saudades do que foi, do que podia ter sido, do que devia ter sido? É sim. Mas é feito com graça, com elegância, com suavidade,  afetos, com belezas. Sou ligada a eles de forma tal que até pra escolher as fotos desse post eu chorei. Que bom sentir tanto assim.

PS. Em outra conversa com a Ju (essa linda) fiquei pensando sobre como se sentir amado, aceito, impacta na vida de Randall (e na minha). Como somos um tanto egoístas. E como, também, achamos natural, fácil, aceitar que nos amem e acreditar que as pessoas merecem ser amadas. Lá pela terceira temporada, Deja fala como pra ela foi impactante a forma fácil como ele a elogiou, como disse que ela era especial, não como um favor condescendente ou uma grande revelação, mas como uma constatação – e como isso era enorme e transformador. Os personagens de This is us merecem outro tanto de posts, els são absurdamente complexos e adoráveis. Só de ver o trailer da temporada já me comovo:

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