A volta das garrafinhas

Sobre viver no Brasil, nestes tempos:

“Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…”

Mario Quintana

Querido diário,

… hoje eu comi um mamão tão doce que a expressão “mamão com açúcar” se tornou um pleonasmo.

… o mar não tá pra Peixes.

… agendei pousada em Canoa pra novembro e lembrei de um status que preparei na cabeça e nunca cheguei a digitar (parece que foi ontem que um moço cheiroso cantou “Moça Bonita” do Geraldo Azevedo no pé do meu ouvidOPA foi ontem mesmo, Canoa é este lugar que faz dobras no tempo)

…tudo em technicolor tem um charme estranho, até a desesperança. Como bem sabia Clarice. Ou como eu gosto de pensar que ela saberia.

…tá confirmado: quanto mais Suassuna melhor. Além da purpurina.

… eu poderia morar na língua brasileira anordestinada.

…descobri que, em se tratando de fugas, tenho as melhores estratégias.

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Mesmo depois de tudo, eu ainda quero te proteger. Do mundo. Dos outros. Das palavras, duras, mesmo que elas nunca cheguem a você. Dos pensamentos, condenatórios, mesmo que você nunca os venha a conhecer. Eu ainda tento te proteger de mim. Principalmente, especialmente, eu ainda tento te proteger de mim. Mesmo que você seja grande, forte e use esta roupa impermeável e eu seja fraca de marré, marré, marré, eu ainda tento de proteger de mim, eu te adivinho um Aquiles invertido, que só mergulhou o calcanhar, vulnerável e desprotegido e eu ainda tento te proteger de mim. Ainda escolho as palavras mais leves. Ainda dou voltas nos ditos. Nunca bato a porta. Nunca exijo a chave. Desculpa aí qualquer coisa, essa coisa que pesa em culpa no meu peito. Eu devia te amar melhor. Eu devia amar melhor, ponto. Eu não sei como, então monto barricadas para me impedir de avançar. Mas não basta. Tenho boa mira e munição, vejo apagar o brilho em olhos onde eu já desejei desejar morar. É isso, eu me distraio com demasiada rapidez. Trago a crueldade na algibeira. Eu tentar te proteger de mim nada mais é do que o reconhecimento de que é tarde demais. Meu exército invadiu o seu país. Música antiga, trocadilhos bobos, eu não consigo nem te proteger da piada ruim. Então evito as verdades. Disfarço cenários. Aponto atalhos. Coloco o cobertor nas tuas pernas, velo teu sono, invento desculpas, aceito reprimendas, acolho o deboche, assumo culpas sobre nada. Palavras fáceis, gestos mansos e, ainda assim, a faca sempre mais afiada, o movimento sempre mais rápido, a estocada sempre mais precisa. Eu ainda tento te proteger. Uso meu corpo de escudo. Ainda tento te proteger. Sigo aparando os golpes. Preocupo-me ao ver sangue. Respiro aliviada: é meu.

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