Bacurau não é um panfleto. É, talvez, um objeto não identificado que traz, gravado, o segredo: sobreviver é arte.

se alguém tem que morrer, que seja pra melhorar (…)
você que não entendeu, não perde por esperar

Tão dizendo por aí que Bacurau é bom. Bom é comer até suar um cozido de carne de criação com cuscuz. Bacurau é cinema de primeira qualidade.

Importa pouco, parece-me, no rol de suas virtudes, que ao ser lançado em época de desgoverno bolsonaro, responda a necessidades subjetivas de nossa militância confusa (importa bem mais, acho, que ele provavelmente não seria rodado neste desgoverno, não com os apoios que teve).

Importa, mesmo, a voz de Gal Costa em uma abertura absurdamente longa e aparentemente desconectada da narrativa, uma beleza que é. Uma abertura que nos coloca no mapa. Nós existimos, teimosamente, a abertura é quase um spoiler.

Importa, mais, o uso de cenas longas seguidas, na parte final, de planos rápidos, quase confusos, não permitindo a autocomplacência do espectador, o uso da brilhante alegoria da nudez, ora sutil, ora uma confrontação óbvia.

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Importa mais a crua desmitificação dos gringos com seus diálogos fracos. Não há nenhuma idealização, não há um mal sofisticado, eles são aquilo mesmo: toscos, broncos, ridículos. Com suas necessidades medíocres e seus arroubos obscenos, eles nada sabem de sobreviver. Como são burros, os motoqueiros que não querem ver o museu. Ao desprezarem a história de Bacurau, ignoram dados importantes para a ação futura.

Importa muito mais a interpretação de Sônia Braga que poderia, com sua trajetória brilhante e talento, destacar-se do resto do elenco, mas disciplinadamente ela sustenta o tom, mantendo entrelaçados os fios que interligam os personagens, em uma espécie de capitonê sofisticado.

Importa mesmo, mesmo, a valentia de quem peleja. De quem se importa. De quem, apesar do que se diz da nossa memória, não esquece. Importa que mesmo cansado a gente puxa a peixeira. Importa é Lunga, é Teresa, os que voltam, os que lutam. Importa é o ônibus feito horta. Importa é aquela reunião de distribuição de comida e remédio, outro spoiler maravilhoso dentro do filme.

Importa é aquele passeio pelos recortes de jornais. Importa é que a dor de Acácio faz chorar de soluçar. Importam os resistentes. importa é que “A gente está sob efeito de um poderoso psicotrópico e você vai morrer.” Importa é o caixão de Carmelita borbulhando água.

Importa que é uma bricolagem de cinéfilo, feito por quem e pra quem ama cinema, com seus clichês e seus escapes.

Importa é que sim, Idris Elba é lindo, mas, pelamor, nós temos Pacote

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