Por onde for

Moça lendo uma carta à janela, c. 1658, por Johannes Vermeer. Óleo sobre tela, 83 x 64,5 cm. Staatliche Kunstsammlungen, Dresden.
Moça lendo uma carta à janela – Vermeer

Sabe, amigo, tenho lido muitos policiais, devorei tudo que encontrei da Karin Slaughter. Agora estou lendo, interessada, “Tudo que nunca contei” de Celeste Ng, que faz pensar no sofrimento de abandonar raízes e identidades em troca de uma adaptação que nunca vem como se espera. Na mesma vibe, terminei a segunda temporada de Mindhunter rapidinho. Já escrevi algumas vezes sobre minha relação com este tipo de narrativa, ela me organiza, me conforta, garante um eixo que a vida mesma, não oferece e ainda debocha.

Ontem vi o documentário Fevereiros e a vida agora é contar os dias até começarem a vender os ingressos pro show de Bethânia em Recife. Estou querendo ir a Santo Amaro da Purificação para a festa de 02 de fevereiro, mas nada garantido, a vida parece uma corrente com âncora que compromete a certeza de chegar com fôlego, lá. Convoquei os amigos, ainda acredito nos afetos.

Na miudeza, esta semana fiz feijão e comi com farinha. Me arrependo de não ter feito capitão. Comprei umas roupas pela internet mas errei o tamanho e elas vieram cabendo uma Luciana e meia. É bastante tecido. Queria redecorar o quarto, outras cores, quadros, uma mesinha de cabeceira. Mas, né. Quem disse que não se pode ter tudo certamente antes conferiu minha conta bancária. Não sei mexer no notebook sem mouse mas comprei um novo com quem ainda não acertei o ritmo.

Como promessa de alento, próxima semana terei muitas fotos de mar. E, talvez, uma declaração pra Jesus, não o da cruz mas o português que treina meu time. Entre tanto desalento, ele me faz feliz.

Na vibe fofoca, porque ninguém é de ferro: o coração tem porta de bar de faroeste, tantos entram como saem. Eu queria mesmo era mandar mensagem pro moço que eu estranho muito: pode ser ou tá difícil? mas suspeito que não saberia o que fazer se ele dissesse que está difícil e, muito menos, se ele abrisse a porteira.

Queria dizer, amigo, amiga, você com quem me enlinhei na rede: gosto demais de saber de você, fica por perto, faz favor de não ir embora.

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Ir embora. Ir embora? Claro. Que não. Partir. Pra onde. Ela já não sabe quem é fora desta relação. Quem era. Alguém sem graça, já que tão esquecível? Ou nem. Como saber depois do amor arrebatação? Arrebentação. Ela tinha uma vida antes, não tinha? Tinha. Casa, carro, banco, amarras, navios. Que queimou. Destruiu, com o arder do desejo, as possibilidades de sair daquele abraço. Nem tinha como sair na ponta do pé. Abriu os braços e saltou.

Quanto tempo faz? Não lembra. O espelho conta em rugas e cabelos prateados. Mas as perguntas ainda a acompanham: Você vai jogar tudo fora? Você é louca? Sim. Sim. Jogou. Rompeu ligações. E ligamentos, no exercício da paixão. Aprimoramentos. Ele também, alguém argumentaria. Ela ri, o amor é sempre recíproco ou não se leu Lacan. Amor convulsão. Revolução. Suspiros. Ela, que podia ilustrar uma daquelas propagandas de Antes/Depois. Se houvesse uma dessas para a alma, claro. Antes: razão, equilíbrio, projetos. Uma vida em planilhas. Aí. Ele. Tudo que é sólido desmancha no ar. Livros demais. Desvaneceu. O pensamento livre. O corpo solto. Rolar no chão, rodopiar, entontecer. Par.

Desvario, disseram amigos, familiares, psicólogo e médico consultados. Tesão. Os olhos dele, escuros, noites eternas. Corpos que se enroscam, quadris que se encaixam, pernas que se confundem. Há quem tenha vida em comum. Nestes anos todos o que tiveram foi uma cama em comum. Mesmo quando não estavam trepando, estavam misturados. As pernas dele a sustentavam, as dela o levavam aqui e ali. Intimidade.

Nem saberia arrumar a mala. Um armário de roupas misturadas. De quem é o pijama com o qual ela dorme?  Sapatos empilhados. Nem é possível pensar em lidar com a gaveta dos documentos ou em uma impossível divisão dos livros. A dúvida. As dúvidas. As dívidas. Com que cara eu vou sair? Não com a mesma de antes das travessuras. Ela já não é aquela. Mas também não permanece a que se tornou. Estranha. Como se despedir com a sensação de que o corpo não sabe ser sem as mãos dele marcando o limite? Ainda sente o beijo leve nos lábios, o beijo de sempre quando ele vai sair dos lençóis, as mãos sustentando os seios, o pé cutucando a bunda em uma tradicional brincadeira cúmplice, tão antiga que já nem sabem porquê existe.

Ir embora. Ir embora? Claro. Que não. Partir. Pra onde. E,ainda mais misterioso: de onde? Ir embora dali, dele, é despedir-se de si mesma. De uma ela que foi possível, que foi a única visível, todos estes anos. Como ir embora se já não sabe quem é, como serão seus passos. Ou o que é o mundo. Se acostumou a ver-se e ao mundo nos olhos dele. Não pelos olhos dele, isso seria mais fácil, uma ela que levaria um ele com ela. Mas nem. Se ela se via no que ele via, como seguir sem esta muleta? Partir. Sair. Deixar. Sem arrependimentos por isso. Retomar os olhos que dera pra ele tomar conta. Um pouco tonta, tenta reconquistar a noção das horas. Seguir. Sem alegria. Sem arrependimento. Ali, quem sabe? ela sabe, foi feliz. Pois vai, vai mesmo. Nunca mais. Vai deixando a fatia mais doce da vida pra trás. Mas aí já são outras canções. E outra coreografia. Passos. Ne pas de deux.

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